A diferença entre os “segundos vinhos” de Bordeaux e os “super segundos”

Um é oficial. O outro é um apelido dado pelo mercado. Emile Peynaud, antigo diretor de pesquisas do departamento de agronomia e enologia da Universidade de Bordeaux, foi também um importante consultor e autor de livros. Seu trabalho influenciou decisivamente as práticas de enologia e vinificação, não apenas Bordeaux, mas em todo mundo, na segunda metade do século passado.

Peynaud defendeu ardorosamente o uso das melhores uvas para produzir o vinho principal do Château, prática que não era usual na região até então. E o segundo vinho serviria para absorver aquelas uvas que não passassem pela triagem.

Melhores uvas?

Importante entender o conceito de “melhores uvas”.  De forma alguma, os “segundos vinhos” são produzidos com uvas de qualidade duvidosa. Longe disso. Os padrões usados na triagem levam em conta itens como a idade da videira e qualidade da safra. Além disso, escolhas do enólogo, como a longevidade esperada do vinho versus a prontidão para o consumo, podem levar a escolhas entre as uvas disponíveis para usar no vinho principal e no segundo. Quando a uva apresenta problemas de qualidade ela é direcionada a vinhos engarrafados com apelações de entrada (Bordeaux AOC, IGP ou até Vin de France), ou outros fins como a destilação.

A prática de engarrafar um segundo rótulo, com uvas de vinhedos mais jovens não é recente. Desde o início do século XVIII há registros da prática na imprensa especializada de Bordeaux. E para evitar uma relação indevida com o “primeiro vinho”, o produtor escolhia um nome completamente diferente. Por exemplo, o nome do segundo vinho do Château Palmer é Reserve du Géneral.

Década de 1980, a identificação de uma nova oportunidade de mercado

A década de 1980 é conhecida como uma “era de ouro” de Bordeaux. Precedida pelas evoluções na vinificação, capitaneada por Emile Peynaud, um novo personagem entra em cena, o crítico Robert Parker. Bordeaux viu o preço e prestígio dos seus vinhos dispararem. Foi a partir daí que os grandes Châteaux do Medoc decidiram turbinar a produção dos seus segundos vinhos.

Mas o foco não era apenas usar as vinhas não aprovadas no processo de triagem. Com a escalada dos preços dos seus vinhos principais, um importante e apetitoso segmento foi criado, num posicionamento de preço intermediário entre os vinhos mais simples e os icônicos. E para justificar o preço a ser cobrado, o vinho deveria entregar qualidade correspondente.

Segundo e terceiro

E alguns produtores, uma minoria por enquanto, não pararam por aí e criaram também um “terceiro vinho”. É o caso do Château Montrose, que engarrafa o “segundo vinho” La Dame de Montrose e o “terceiro”, o Le St-Estèphe de Montrose.

O fato é que os “segundos vinhos” se tornaram um big business em Bordeaux. Custa menos para produzir (menos barrica nova utilizada) e pega uma carona no nome do produtor. E a margem, apesar de inferior ao dos vinhos principais (Grand Vin) são ainda bastante atraentes, capturando uma faixa maior de consumidores. Sem contar que é razoável supor que eles são menos “adegados”, ou seja, menos armazenados pelos consumidores, do que os Gran Vin, pois possuem menos estrutura e potencial de envelhecimento. Ou seja, são comprados para serem consumidos em menos tempo. Portanto, giram mais e melhoram o fluxo de caixa do produtor.

Mas nada disso seria possível se não entregassem, como realmente entregam, qualidade.

O que diz a legislação

A Federation des Grands Vins de Bordeaux (FGVB) estipula que o nome château deve ser reservado para o vinho icônico da propriedade. O que é interessante observar é que a maioria dos produtores segue essa diretriz. O “segundo vinho” do Château Lafite-Rothschild é Carruades de Lafite-Rothschild, o que está perfeitamente de acordo com a regulamentação.

Porém, o “segundo vinho” do Château Margaux tem o nome de Pavillon Rouge de Château Margaux. E se não bastasse a “desobediência”, o terceiro vinho leva o nome de Margaux de Château Margaux. O autor desconhece como um desrespeito a regulamentação assim é tolerado. E se algum bem-informado leitor souber, favor deixar um comentário.

Os super segundos

O termo “super segundo” não é oficial, mas é muito utilizado. Para entendê-lo é necessário lembrar que a classificação dos vinhos do Medoc, feita em 1855, e vigente até hoje, dividiu os 60 principais vinhos da região em cinco níveis. E deu o nome de 1er Cru Classé, 2eme… terceiro … 4eme e 5eme. Isso pode sugerir uma classificação de qualidade, o que não é necessariamente verdade.

Porém, muitos defendem que se a classificação fosse hoje revista, muitos vinhos receberiam upgrade. E, de fato, o mercado já os premia com reconhecimento e preço. São eles:

2eme Cru Classé: Os “Châteaux” Cos d’Estournel, Ducru-Beaucaillou, Léoville Las Cases, Léoville-Poyferré, Montrose, Pichon Longueville Comtesse Lalande, Rauzan Ségla e Pichon Longueville Baron3eme Cru Classé: O “Château” Palmer5eme Cru Classé: Os “Châteaux” Pontet Canet e o Lynch-Bages

Segundo vinho é um segmento, super segundo é reconhecimento

A escalada global do preço dos vinhos fez disparar o preço dos famosos e aristocráticos vinhos do Medoc, a área mais nobre de Bordeaux, cuja classificação foi estabelecida em 1855. Neste cenário, os chamados “Segundos Vinhos” constituem uma alternativa para degustar os icônicos terroirs dessa região, a preços menos estratosféricos. Do ponto de vista mercadológico, deve ser entendido como um segmento de mercado dos vinhos de Bordeaux, independente das classificações oficiais.

Não é o caso dos “super segundos”, pois seus preços já refletem o prestígio que recebem. Nesse caso, os vinhos nessa categoria já gozam do prestígio, reconhecimento da crítica especializada e, em alguns casos, da mesma faixa de preço dos icônicos cinco rótulos classificados como 1er Cru Classé.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

Imagems: Pixhere

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