A Pinot Noir e sua enorme diversidade clonal: vinhos para múltiplos paladares

Para muita gente, clones ainda são intuitivamente ligados com a ficção científica, com exércitos de clones criados para dificultar a vida dos mocinhos de filmes, como no caso de Guerra nas Estrelas. Porém, os clones estão muito mais próximos do que você imagina, principalmente para quem aprecia uma boa taça de Pinot Noir.

Sendo uma uva com uma longa história e uma destacada posição na “hierarquia” das variedades tintas, a Pinot Noir tem atualmente mais de 1.000 clones distintos, cada um deles com características próprias. Mas antes de falar sobre seus principais clones, vale a pena entender qual a sua função e como chegamos até eles.

História e clones fora da França

A seleção clonal de uvas começou no século XIX na Alemanha e gradualmente ganhou espaço em diversos outros países, sobretudo Estados Unidos e França. No caso específico da Pinot Noir, a partir da década de 1940, o Dr. Harold Olmo, da Universidade da Califórnia – Davis, começou a importar videiras de Pinot Noir da França, Alemanha e Suíça. O objetivo era criar videiras com resistência a vírus, visando proporcionar ao viticultor norte-americano opções mais seguras desta variedade francesa, já presente na América do Norte ao menos desde o século XIX.

De seus esforços, que culminaram com a fundação da UC-Davis’s Foundation Plant Services (FPS) em 1958, diversos clones de Pinot Noir foram criados. A importação mais antiga de mudas desta variedade documentada por Olmo foi em 1951, com plantas provenientes de Pommard, na Borgonha. A partir destes esforços, surgiu o clone UCD4. Mas por ainda conter vírus, novos clones foram lançados (UCD5 e UCD6), que também não se mostraram plenamente adaptados, culminando com o UCD91. Por conta de sua origem, toda esta “família” de clones passou a ser chamada de Pommard.

Olmo também importou videiras da Suíça (Wädenswil e Mariafeld), que resultaram em clones utilizados até hoje, como o Wädenswil 2A, conhecido pelo seu estilo floral e notas de cereja, framboesa e pétalas de rosas, com corpo e taninos médios. Este clone contrasta do UCD5, por exemplo, com estilo mais terroso, notas de frutas mais escuras e especiarias, além de corpo médio e taninos mais presentes.

Os primeiros clones oficiais franceses

Na França também foi feito um elaborado e detalhado trabalho no que diz respeito à clonagem da Pinot Noir.  A seleção oficial francesa de clones da Pinot Noir começou na década de 1950, com um objetivo principal. Em uma época de climas frios, os viticultores precisavam garantir que as uvas amadurecessem o suficiente. Por conta disso, o foco dos cientistas foi no desenvolvimento de clones com bom acúmulo de açúcar e maturação precoce.

Mas as primeiras versões oficiais, criadas por cientistas baseados em Dijon, levaram mais tempo para serem lançadas. Foi somente em 1971 que os primeiros clones oficiais franceses de Pinot Noir foram lançados, numerados de 111 a 115. Eles têm sua produção licenciada e garantidos como livres de vírus e os clones 114 e 115 ainda são amplamente utilizados hoje.

Clones 114 e 115

O 114 teve origem em plantas de Morey-Saint-Dennis e não trouxe grandes avanços em termos de rendimentos ou proteção contra doenças, mas são muito procurados pelas características dos vinhos produzidos a partir dele. As uvas têm uma ótima capacitada para reter acidez, com boa quantidade de açúcar. Consequentemente, dá origem a vinhos muito perfumados, com aromas de romã, coca cola e blueberry, além de corpo médio a alto e taninos na medida.

Já o 115, também criado a partir de videiras provenientes de Morey-Saint-Dennis, é até hoje usado pelos seus vinhos redondos e de taninos discretos e macios, com corpo médio alto e aromas mais intensos de pétalas de rosas, cerejas vermelhas e anis. Para melhores resultados, deve ser plantado em áreas de boa drenagem e exposição favorável, por conta de seu amadurecimento precoce e bons níveis de açúcar.

As séries intermediárias

Após o sucesso da série inicial, novos clones (665 até 668) foram lançados em 1980 e, assim como os demais, são conhecidos como os clones Dijon. O destaque ficou com o 667, que, apesar de uma acidez ligeiramente mais baixa, produz vinhos de muita longevidade, com taninos e pigmentos bem presentes. Do ponto de vista de quantidade produzida, equivale ao 115, porém com um olfativo mais elegante e de melhor qualidade.

Apenas um ano depois, em 1981, a série entre 777 e 780 foi lançada. Um dos clones mais utilizados atualmente, o 777 tem um ciclo vegetativo mais curto, com floração mais tardia e maturidade mais precoce. Apesar de menor acidez, seus vinhos mostram maior concentração no visual, corpo mais presente, aromas mais intensos (cerejas negras, cassis e alcaçuz) e muito equilíbrio de boca.

Novas gerações

Dentro de um intenso cronograma de novos lançamentos da época, o final dos anos 1980 os clones 828, 871 e 943 estrearam. O 828 tem como principais características uma produção mais baixa, por conta de cacho e grãos de menor tamanho. A fruta atinge altos níveis de açúcares, com boa pigmentação e taninos bem presentes. Seus vinhos são avaliados como aromáticos, frutados e redondos no paladar. Um corte com o clone 777 é recomendado.

Já o 943 tem o menor cacho e tamanho de grão entre todo os clones certificados de Pinot Noir. Em função de níveis mais altos de açúcares e taninos bem macios, são mais recomendados para locais mais frios. Seus vinhos são concentrados, equilibrados e longos, mas algumas vezes trazem aromas peculiares. É mais utilizado em cortes com outros clones.

Uva mais sujeita à clonagem e mutações?

Por conta da grande quantidade de clones e mesmo mutações (como Pinot Gris, Pinot Blanc ou Pinot Meunier), muita gente se pergunta se a Pinot Noir tem uma estrutura mais propensa a mutações do que outras uvas. Em depoimento à Master of Wine Anne Krebiehl, o respeitado geneticista espanhol de uvas José Vouillamoz (coautor de um famoso livro sobre uvas com Jancis Robinson e Julia Harding), deixou sua posição clara.

“Até onde eu sei, nenhum estudo científico jamais mostrou que um mecanismo molecular específico tornaria a Pinot Noir mais propensa a mutações do que outras variedades de uvas”. Porém, ele pontua que “ela é certamente uma das variedades de uvas mais antigas do mundo, portanto, teve muito tempo para acumular mutações somáticas e modificações epigenéticas.”

Fontes: Bourgogne Master-Level Study Manual, Wine Scholar Guild; A Wine Geek’s Guide to Pinot Noir Clones Around the World, Anne Krebiehl MW; Vine Pair

Imagem: 501stCommanderMax via Pixabay

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