Arqueologia do vinho: conheça o roteiro da Vitis vinifera selvagem até dar origem às uvas europeias

Com algumas raras exceções (entre elas o Brasil), quando se fala de vinho, a espécie de uva que chama mais a atenção é a Vitis vinifera. Mesmo aqui, onde uma parte importante do mercado de vinhos ainda é dominada por exemplares feitos de uvas híbridas ou americanas, porém, não há como negar que os melhores vinhos sejam elaborados a partir da Vitis vinifera.

Esta espécie, também chamada de Vitis vinifera spp. sativa (sub-espécie sativa) foi domesticada há ao menos 8.000 anos, a partir de populações de videiras selvagens, chamadas de Vitis vinifera spp. sylvestris. Estas uvas silvestres eram encontradas originalmente em uma ampla área geográfica, desde a costa atlântica da Europa até o oeste do Himalaia. Atualmente ela ainda existe, porém em áreas mais restritas.

Todas as variedades existentes da Vitis vinifera (como  Cabernet FrancPinot NoirRiesling ou Chardonnay, por exemplo) descendem da Vitis vinifera sylvestris. Porém, por muito tempo houve dúvidas sobre como e quais caminhos estas variedades trilharam para se desenvolver na Europa, para, posteriormente, ganhar o restante do mundo. E nada melhor que a ciência para responder estas perguntas.

Populações isoladas ou a “Hipótese de Noé”?

As evidências atuais mostram que a domesticação da Vitis vinifera sylvestris ocorreu primeiro na região do Cáucaso ou nas montanhas Zagros, no leste da Turquia. Isso, somado com achados arqueológicos nas atuais áreas da Geórgia, Armênia e Turquia, colocam esta região do sudoeste da Ásia como o berço da viticultura.

Mas e na Europa? Por algum tempo se especulou que as variedades europeias poderiam ser descendentes de sub-espécies da Vitis vinifera sylvestris existentes no continente europeu. A outra hipótese é que estas variedades seriam, na verdade, originárias do sudoeste da Ásia, de onde teriam sido levadas para a Europa. Esta teoria ganhou o nome de “Hipótese de Noé”, com referência à famosa arca mencionada na Bíblia.

Embora existam algumas evidências de domesticação de videiras selvagens na Europa, análises de DNA mostraram que a “Hipótese de Noé” estava correta. Assim, as principais variedades de uva europeias tiveram origem no sudoeste da Ásia. As atuais variedades, deste modo, resultariam destas videiras “importadas”, com suas variações explicadas por cruzamentos naturais com videiras locais. A genética mostrou que existe mais em comum entre as variedades cultivadas europeias com as videiras selvagens da Ásia Ocidental do que com aquelas da própria Europa.   

Diferença genética

As análises mostram que um único evento de domesticação ocorreu na Ásia Ocidental. Ele foi seguido por cruzamentos com populações selvagens europeias para dar origem ao que conhecemos hoje como as principais variedades da Vitis vinifera. Porém, estando esta teoria confirmada pela genética, um ponto sempre incomodou e chamou a atenção dos cientistas.

Existe uma diferença genética significativa entre as principais variedades cultivadas atualmente na Europa em relação com aquelas que hoje são as uvas mais populares para a produção de vinhos em regiões como Geórgia e Armênia. O que explicaria tamanha diferença, já que ambas teriam origem comum? Para buscar uma solução para este impasse, um novo estudo parece ter identificado algo que não era conhecido.

Um novo caminho

Este estudo, publicado no final de 2021, analisou os genomas de 204 variedades de Vitis vinifera. Ele confirmou que único evento de domesticação ocorrido no sudoeste da Ásia seria a origem das uvas europeias. O estudo também destacou que, em toda a Europa, diferenças acentuadas na diversidade genômica são observadas em variedades locais. Isso ocorre em todo o continente, com Itália e França mostrando a maior diversidade.

Porém, o que mais chamou a atenção foi a possível resolução do motivo das diferenças entre uvas cultivadas hoje na Europa e aquelas utilizadas atualmente para elaborar vinhos na Geórgia e Armênia. A explicação é que, na verdade, a subespécie de uva “exportada” para a Europa após a domesticação na Ásia Ocidental não seria a mesma usada para elaborar vinhos. Seria uma uva de mesa.

Deste modo, isso consegue explicar o aparente paradoxo. De um lado, as variedades atuais europeias têm mais proximidade genética com as uvas silvestres do sudoeste da Ásia do que com as videiras silvestres europeias. De outro lado, ajuda a entender por que são possíveis tantas diferenças genéticas em relação às uvas atualmente usadas para produção de vinhos no berço da viticultura mundial. Agora, a expectativa é de novos estudos que consigam mapear melhor os caminhos desta evolução, ajudando a construir uma “árvore genealógica” mais completa das principais varietais vinificadas atualmente.     

Fontes: Ancient Wine, Patrick McGovern, The genomes of 204 Vitis vinifera accessions reveal the origin of European wine grapes, Magris et all

Imagem: Jill Wellington via Pixabay

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