Batalha judicial na França resulta em condenação de ativista contrária ao uso de pesticidas

Uma batalha com duas partes afirmando que têm razão e uma decisão da Justiça que gerou alívio para um grupo e revolta de outro. De um lado, Valérie Murat, filha de um produtor de vinhos e ativista da associação Alerte aux Toxiques, de outro um grupo de produtores de Bordeaux, representados pelo Conselho Interprofissional de Vinhos de Bordeaux (CIVB).

O motivo? Em setembro de 2020 Murat e a associação publicaram uma análise que revelou a presença de resíduos de agrotóxicos em 22 vinhos (19 deles de Bordeaux), todos certificados como sustentáveis pelo selo HVE (Haute Valeur Environnementale). Segundo a análise, todas as garrafas continham moléculas consideradas potenciais disruptores endócrinos. Em onze delas, foram destacados vestígios de substâncias classificadas como CMR (cancerígeno, mutagênico e reprotóxico), enquanto em nove havia traços de ao menos um fungicida.

A reação dos produtores e da Justiça

O relatório, que trazia o nome dos produtores e vinhos, foi considerado como absurdo e depreciativo pela CIVB. Para a associação, que representa o interesse dos produtores, o relatório minou a reputação dos vinhos da região. Bernard Farges, presidente do CIVB, deixou claro que nenhum vinho estava fora das regras. Ele afirmou as quantidades de pesticidas detectados nos vinhos eram ínfimas: “Quando estamos entre 60 e 5.000 vezes abaixo dos limites autorizados pelas regulamentações francesas, estamos 60 a 5.000 vezes abaixo da regra. Assim, afirmar que esses vinhos são perigosos é depreciação”.

A CIVC entrou na Justiça e a primeira audiência foi realizada em dezembro de 2020. A sentença foi proferida em fevereiro de 2021, com uma pesada multa para Valérie Murat e sua associação: € 125 mil em indenizações. No aguardo da audiência de apelação, Murat e a associação seguiram gradualmente pagando a multa. Todos os meses, desde abril de 2021, 400 euros foram debitados da conta pessoal e outros 400 da conta da associação. Uma segunda audiência aconteceu em novembro de 2021, confirmando a condenação.

As reações dos envolvidos

A CIVB ficou “muito satisfeita” com a decisão. “Aqui, não foi a livre expressão de opinião que havia sido condenada, mas a mentira e nada mais”, afimou Farges à agência de notícias AFP. “Pode-se argumentar, pode-se informar, mas não se deve distorcer a realidade.” O porta-voz da CIVB, Christophe Chateau, denunciou o relatório como uma “fraude intelectual”. “Não só os pesticidas que foram mencionados são aprovados, mas eles são encontrados nos vinhos como microtraços, 100 a 1.000 vezes mais baixos do que os limites autorizados”. Esta, seria, nas suas palavras “uma informação destinada apenas a manchar a reputação dos vinhos de Bordeaux”.

Murat, obviamente, teve uma reação distinta. Segundo ela, também em entrevista à AFP, “é proibido criticar e revelar e dizer que nos vinhos certificados HVE existem pesticidas que estão entre os mais perigosos de todos”. Ela também criticou a elevada quantia a ser paga. “Eu não sou rica ou dona de grandes vinhedos como alguns que me atacam.”

Em nota à imprensa, os laboratórios Dubernet, responsáveis pela análise dos vinhos visados pela associação, colocaram os resultados em perspectiva. “Denunciar um vinho que contenha níveis abaixo do limite máximo de resíduo e, portanto, está em uma situação de perfeita legalidade, é um processo difícil de defender”.  “O que sabemos é que os níveis de resíduos nos vinhos, quando encontrados, eram muito baixos, sempre bem abaixo do máximo”.

Uma longa história

Valérie Murat é filha de um produtor de vinhos, que atuou por muitos anos em Bordeaux. Seu pai, James, faleceu por conta de um câncer em 2012, que foi reconhecido como uma doença ocupacional. Ele foi exposto por mais de 40 anos a um pesticida usado em videiras, que foi banido na França em 2001.

E a relação nada amistosa entre Valérie Murat e Bernard Farges, presidente do CIVB, tem um histórico mais longo. Juntamente com outra ativista, Murat mandou analisar vários vinhos em 2018, entre eles um produzido pelo Château de l’Enclos. Essa vinícola, que cultiva cerca de 90 hectares, é de posse da família Farges há oito gerações, e, desde 1995, vem sendo administrada pelos irmãos Bernard e Christian. O resultado mostrou a presença de 16 pesticidas, incluindo quatro considerados como CMRs. Na época, o vinho não tinha qualquer certificação, de forma que a presença destas sustâncias não era ilegal.

A briga continua

Embora o relatório publicado em 2020 tenha sido banido por decisão da Justiça, a Alerte aux Toxiques continua publicando informações com seu ponto de vista sobre a certificação HVE e o uso de pesticidas nos vinhedos na França. Quem quiser conhecer melhor a argumentação ou mesmo contribuir para o pagamento da multa, o site pode ser acessado aqui.

Fontes: Le Monde; Vitisphere; Alerte aux Toxiques; Basta Media; Rue89Bordeaux; Wine Life Magazin

Imagem: Ezequiel Octaviano via Pixabay

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