Bordeaux: conheça mais sobre a classificação de 1855

A classificação de vinhos de Bordeaux de 1855 é possivelmente o mais famoso e reconhecido ordenamento de vinhos do mundo. Mais de 165 anos após seu anúncio, foram realizadas apenas duas alterações na classificação original de vinhos tintos do Médoc, o que evidencia sua longevidade.

Ao contrário de outras classificações, como na Borgonha, por exemplo, não houve uma avaliação direta ou objetiva do terroir, dos vinhedos ou das técnicas de produção. O critério principal foi bastante simples: os consumidores pagam mais caro por vinhos de melhor qualidade. Assim, o ordenamento dos vinhos foi determinado, em grande parte, pelo preço de venda dos vinhos por um longo período. Neste caso, na elaboração do ranking oficial para a classificação de 1855, considerou-se o preço médio de venda referente ao período de 1815 a 1855.

Necessidade de uma classificação formal

Embora já existissem rankings paralelos, a necessidade de uma classificação oficial ficou clara com a proximidade da Exposition Universelle de Paris, que durou de maio a novembro de 1855. O governo de Napoleão III viu esta feira de alcance internacional como a oportunidade perfeita para colocar a França e seus produtos em evidência. E, na época, os vinhos eram um dos principais cartões de visita dos franceses.

Mas como acomodar os milhares de produtores de vinho de Bordeaux, que queriam mostrar seus vinhos na exposição? Por conta do elevado número de expositores e, levando também em conta a maciça presença esperada de público, o governo francês decidiu agir antes que a feira tivesse início. E passou a responsabilidade de criar um ranking para as autoridades do Bordeaux. Afinal de contas, ninguém conhecia tão bem os vinhos da região como os responsáveis por sua elaboração e comercialização.

O processo de criação

Em 5 de abril de 1855, a Câmara de Comércio da Gironde ordenou a criação de uma classificação oficial para as principais regiões da margem esquerda de Bordeaux. Os châteaux selecionados eram todos localizados em cinco denominações do Médoc: Margaux, Saint-Julien, Pauillac, Saint-Estèphe e Haut-Medoc, além de um produtor em especial, Chatêau Haut-Brion, proveniente de Graves.

O sindicato dos negociantes de vinhos de Bordeaux recebeu a incumbência de desenvolver o plano. E a resposta foi rápida. Os negociantes levaram menos de duas semanas para criar a classificação oficial de Bordeaux, que foi concluída em 18 de abril de 1855. O ranking dividiu os melhores vinhos tintos de Bordeaux em cinco categorias. Ao todo, um total de 57 chateaux (que hoje correspondem a 60 por conta de cisões de propriedades ocorridas desde então) de Bordeaux foram incluídos na classificação original de 1855.

Na categoria mais alta, a de Premières Crus, foram incluídos quatro produtores: Château Lafite Rothschild e Château Latour, ambos de Pauillac; Château Margaux, da denominação de mesmo nome, e Château Haut-Brion. Para a categoria seguinte (Deuxièmes Crus) foram escolhidos 12 produtores (atualmente 15, já que um dos produtores originais foi dividido em três). Sucessivamente, foram 14 Troisièmes Crus, 11 Quatrièmes Crus (atualmente 10) e 17 Cinquièmes Crus. O número total mudou para 58 em 1856, já que um produtor (Château Cantemerle) havia sido erroneamente excluído da lista original.

Longo histórico de classificação

Pode causar estranheza que uma classificação que já dura mais de 165 anos tenha sido elaborada em apenas duas semanas. Na verdade, a classificação de 1855 foi apenas uma oficialização de diversos rankings que já existiam muito antes disso. Desde o início do século XVII, os vinhos de Bordeaux já vinham sido classificados de acordo com suas condições e preços de negociação.

Por exemplo, o futuro presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, foi um daqueles a divulgar seu ranking de melhores vinhos, após uma visita à região em 1787. Curiosamente, a sua categoria mais alta também era composta por quatro vinhos, exatamente os mesmos que lideraram a classificação de 1855. Deste modo, mais do que um esforço de poucas semanas, a classificação de 1855 pode ser considerada como a formalização de um trabalho de vários séculos.

Ranking praticamente estático

Além da inclusão do Château Cantemerle em 1856, apenas uma alteração ocorreu na classificação desde sua criação. Em 1973 o Deuxième Cru Château Mouton-Rothschild foi elevado para Premier Cru, em uma decisão controvertida e até hoje fonte de inúmeras discussões. Todos os demais produtores foram mantidos nas mesmas categorias, obviamente levando em conta as mudanças de nomes e/ou cisões ou fusões ocorridas em um período tão longo de tempo.

O principal fator que ajuda a explicar isso é a forma no qual a classificação foi realizada. Pelas regras definidas originalmente, um produtor poderia adquirir terras de um vizinho em posição superior ou inferior (obviamente sendo o segundo caso mais comum) e incorporar estas novas terras dentro da sua classificação.

Hipoteticamente, assim, um produtor Premier Cru Classé com 100 hectares de vinhedos poderia adquirir 50 hectares de um vizinho classificado como Troisième Cru, resultando em 150 hectares de vinhedos Premier Cru. Assim, aqueles produtores mais bem classificados inicialmente possuem uma enorme vantagem financeira em relação a produtores sem classificação ou de ranking inferior.

Ranking e preços

Apesar da classificação ter mudado pouco desde sua criação, isso não significa que os preços dos vinhos necessariamente respeitem o ranking de 1855. Mesmo tendo suas classificações mantidas, não foram poucos os produtores que registraram melhoras ou pioras na qualidade de seus vinhos. E o mercado se ajustou, premiando os melhores com preços maiores e vice-versa.

Um exemplo interessante é o do Château Gloria, que foi criado em 1942 (portanto, fora da classificação) em Saint-Julien, por Henri Martin. Ele inicialmente adquiriu seis hectares que pertenciam ao Deuxième Cru Classé Château Gruaud Larose, atualmente atingindo mais de 50 hectares de vinhedos nesta denominação. Apesar de não ser classificado, o vinho produzido pelo Château Gloria atualmente alcança patamares de preços superiores a muitos Quatrièmes e Cinquièmes Crus. Outro exemplo é o Château Pontet Canet, um Cinquième Cru que alcança preços superiores à maioria dos Deuxièmes Crus.

Um ponto que também chama a atenção na classificação de 1855 é que os produtores não foram classificados por ordem alfabética dentro de suas respectivas categorias na lista original. Isso ocorre pois existiu um ranqueamento também dentro de cada categoria, com os vinhos de melhor classificação em 1855 aparecendo primeiro dentro de cada categoria. Por exemplo, o Château Mouton-Rothschild era o primeiro a aparecer na lista de Deuxièmes Crus, antes de ser promovido a Premier Cru. Porém, por pressão de alguns produtores, versões posteriores da lista foram publicadas em ordem alfabética.

Abrangência

É importante destacar que a classificação de 1855 se refere somente aos vinhos tintos da região do Médoc, à exceção do Chateau Haut-Brion, que foi incluído por conta de sua excelente reputação. Deste modo, não inclui os vinhos de regiões da margem direita, como Pomerol (que não tem classificação), ou Saint-Émilion (que tem classificação própria).

Mesmo dentro das principais denominações do Médoc, a classificação não incluiu um elevado número de produtores. Depois de muitas controvérsias em relação ao uso dos termos Crus Bourgeois, Crus Bourgeois Supérieurs ou Crus Bourgeois Exceptionnels, ainda não existe um consenso sobre como classificar o que se convencionou chamar de Petit Châteaux.

Porém, em 1855 foi divulgada também uma classificação para os vinhos doces brancos de Sauternes e Barsac, com apenas três categorias. A mais alta foi Premier Cru Supérieur, reservada apenas para o Château d’Yquem; as outras sendo Premier Cru e Deuxième Cru.

A classificação oficial de 1855

Abaixo, as cinco categorias de produtores incluídos na classificação de 1855 e suas respectivas denominações de origem, com os nomes atuais ou outras mudanças destacadas entre parênteses.

Premières Crus

Château Lafite Rothschild, Pauillac
Château Latour, Pauillac
Château Margaux, Margaux
Château Haut-Brion, Pessac, Graves (desde 1986, denominação Pessac-Léognan)

Deuxièmes Crus

Château Mouton-Rothschild (elevado a Premier Cru em 1973), Pauillac
Château Rausan-Ségla (Rauzan-Ségla), Margaux
Château Rauzan-Gassies, Margaux
Château Léoville Las Cases, St.-Julien
Château Léoville Poyferré, St.-Julien
Château Léoville Barton, St.-Julien
Château Durfort-Vivens, Margaux
Château Gruaud-Larose, St.-Julien
Château Lascombes, Margaux
Château Brane-Cantenac, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château Pichon-Longueville Baron, Pauillac
Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande (Pichon Longueville Lalande), Pauillac
Château Ducru-Beaucaillou, St.-Julien
Château Cos-d’Estournel, St.-Estèphe
Château Montrose, St.-Estèphe

Troisièmes Crus

Château Kirwan, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château d’Issan, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château Lagrange, St.-Julien
Château Langoa Barton, St.-Julien
Château Giscours, Labarde-Margaux (Margaux)
Château Malescot-St.-Exupéry, Margaux
Château Cantenac-Brown, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château Boyd-Cantenac, Margaux
Château Palmer, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château La Lagune, Ludon (Haut-Médoc)
Château Desmirail, Margaux
Château Calon-Ségur, St.-Estèphe
Château Ferrière, Margaux
Château Marquis-d’Alesme-Becker, Margaux

Quatrièmes Crus

Château St.-Pierre, St.-Julien
Château Talbot, St.-Julien
Château Branaire-Ducru, St.-Julien
Château Duhart-Milon Rothschild, Pauillac
Château Pouget, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château La Tour, Carnet St.-Laurent (Haut-Médoc)
Château Lafon-Rochet, St.-Estèphe
Château Beychevelle, St.-Julien
Château Prieuré-Lichine, Cantenac-Margaux (Margaux)
Château Marquis de Terme, Margaux

Cinquièmes Crus

Château Pontet-Canet, Pauillac
Château Batailley, Pauillac
Château Haut-Batailley, Pauillac
Château Grand-Puy-Lacoste, Pauillac
Château Grand-Puy-Ducasse, Pauillac
Château Lynch Bages, Pauillac
Château Lynch-Moussas, Pauillac
Château Dauzac, Labarde (Margaux)
Château Mouton-Baronne-Philippe (Château d’Armailhac após 1989), Pauillac
Château du Tertre, Arsac (Margaux)
Château Haut-Bages Libéral, Pauillac
Château Pédesclaux, Pauillac
Château Belgrave, St.-Laurent (Haut-Médoc)
Château Camensac (Château de Camensac), St.-Laurent (Haut-Médoc)
Château Cos Labory, St.-Estèphe
Château Clerc Milon, Pauillac
Château Croizet-Bages, Pauillac
Château Cantemerle, Macau (Haut-Médoc)

Fontes: Enciclopedia do Vinho, Hugh Johnson; Encyclopedia of Wine, Larousse; The Wine Cellar Insider; Wine Spectator

Imagem: Carl Laubin

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