Bordeaux: conheça o papel primordial dos holandeses na criação desta potência do vinho

A região do Bordeaux, embora situada na França, tem uma longa associação com a Inglaterra, inclusive no que diz respeito a seus vinhos. E isso tem a ver com sua conturbada história, que ligou por muito tempo esta região com a coroa inglesa. Entre os séculos XII e XV, quando ainda não fazia parte da França, Bordeaux viveu uma época de ouro. E um dos motivos foi um casamento, entre Eléonore, herdeira da casa de Poitiers e Duquesa da Aquitânia, com Henrique II Plantagenet, Conde de Anjou.

Henrique II, que era neto do rei Henrique I da Inglaterra, acabou herdando o trono inglês poucos meses após seu casamento com Eléonore. E, criando um império que ia desde os Pirineus até a Irlanda, concedeu aos mercadores de Bordeaux o benefício de livre comércio, sem impostos, com a Inglaterra. Já muito importante na época, o comércio de vinho floresceu e esta relação só foi interrompida em 1453, quando a França conquistou Bordeaux.

Uma Bordeaux diferente

No entanto, a região produtora de vinhos de Bordeaux nesta época era completamente diferente do que conhecemos atualmente. Hoje em dia, Bordeaux goza de uma enorme reputação na vinicultura, principalmente pela quantidade e qualidade dos vinhos do Médoc, que respondem pela maioria dos vinhos de alta qualidade da região.

Embora regiões da margem direita, como Pomerol e Saint-Emilion, também tenham atingido um status especial, falar de vinhos de alta qualidade em Bordeaux passa necessariamente por nomes do Médoc. Denominações de origem como Margaux, Pauillac, Saint-Estèphe, Saint-Julien e Pessac-Leognan são pilares da tradição de vinhos de Bordeaux, respondendo por todos os produtores classificados como Premières Crus da famosa classificação de 1855.

Mas isso era muito diferente no passado. À exceção de Pessac-Leognan, onde está situado o cultuado produtor Château Haut-Brion, todas estas regiões da margem esquerda simplesmente não existiam no que diz respeito à produção de vinhos na época do domínio inglês. O motivo? Grande parte do Médoc era, na época, composta por pântanos ou pequenas ilhas, inviáveis para o cultivo de uvas. A produção de vinho se concentrava ao sul da cidade de Bordeaux.

Médoc na Idade Média

Holandeses e os vinhedos

Este quadro só viria a mudar no final do século XVI, portanto, após a expulsão dos ingleses e incorporação de Bordeaux à França. Foi quando o governo francês solicitou ajuda aos holandeses para drenar vastas áreas de pântanos. Com larga experiência no assunto (por conta de sua geografia, a Holanda vive uma eterna batalha contra o mar) os holandeses foram os escolhidos, rapidamente trazendo resultados.

Em meados da década de 1630, praticamente todas as áreas do Médoc ao norte de Bordeaux foram protegidas da ação do mar pelo uso de técnicas desenvolvidas pelos holandeses. De um lado, dunas ao lado do oceano foram controladas, de outro, diques e moinhos foram construídos para conter e bombear água ao longo da Gironde. O resultado foi que, ao final do século XVII, quase todo o Médoc foi drenado, com enorme ganho de áreas para agricultura e cultivo de gado.

Famílias holandesas, como Kat e Van Bommel, adquiriram terras e desenvolveram a viticultura e outras formas de agricultura na região. Além disso, isso explica porque até hoje todo o norte do Médoc ainda tem uma presença significativa de vacas holandesas, ainda resquícios da forte influência dos Países Baixos na região.

Comércio e competição

Os holandeses, porém, não atuaram somente na agricultura e pecuária. O foco ficava também no comércio. Por conta da Guerra dos Trinta Anos, que devastou os vinhedos alemães na primeira metade do século XVII, os holandeses intensificaram sua presença de comércio de vinhos no sudoeste da França. E não foi apenas Bordeaux que se beneficiou, com intenso plantio de uvas e comércio também na região de Cognac.

Porém, o domínio holandês sobre o comércio da região não durou tanto tempo. Os próprios franceses estabeleceram pesados impostos aos holandeses no final do século, visando eliminar esta intermediação entre o sudoeste da França e a Europa do Norte. Curiosamente, quem iria desempenhar um papel importante seria novamente a Inglaterra, contando com o apoio dos comerciantes de Bordeaux.

Nova era de ouro

O século XVIII representou outra era de ouro para Bordeaux. O Port de la Lune (nome dado ao porto da cidade em função de seu formato) serviu como entrada na Europa para café, cacau, açúcar, algodão e índigo, tornando-se o porto mais importante da França e o segundo mais movimentado do mundo, somente após Londres.

E o comércio de vinho desempenhou um importante papel neste período, tendo os comerciantes locais e seus vínculos com a Inglaterra uma atuação destacada. Bordeaux passaria a ter um papel predominante não somente no comércio, mas também na produção de vinhos. Eles passaram a suprir não só as necessidades da França e de diversos países do norte da Europa, mas também praticamente todo o Império britânico.

Nada disso, porém, teria sido possível sem que a região tivesse sofrido uma profunda transformação no século XVII, pelas mãos de engenheiros holandeses. Falar da história dos vinhos de Bordeaux não é completa sem uma menção à atuação dos britânicos, porém o papel dos holandeses, muitas vezes ignorado, foi tão ou mais importante. Sem eles, possivelmente não existiriam vinhedos em boa parte do Médoc e o mundo do vinho seria muito diferente do que é hoje.  

Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; Wine History of Bordeaux, seminário de Tanya Morning Star Darling; The Wine Cellar Insider

Imagem: Jean-Michel SACHOT via Pixabay

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