Chardonnay em sua excelência: conheça os Grand Crus de Chablis

Chablis é uma região especial, sobretudo para quem aprecia vinhos elaborados a partir da Chardonnay que combinam qualidade, frescor e tensão. São quatro denominações de origem na região, começando com os mais básicos Petit Chablis AOC e Chablis AOC e passando pelos Chablis Premier Cru, vinhos de alto padrão elaborados a partir de 40 climats diferentes.

Porém, não há como apreciar os vinhos de Chablis sem conhecer os vinhos de sua denominação de maior distinção, o topo da pirâmide de qualidade da região: Chablis Grand Cru. Os sete climats que recebem esta classificação estão localizados em apenas uma encosta, na margem direta do rio Serein, a noroeste do vilarejo de Chablis.

Esta denominação de origem conta com 106,82 hectares, produzindo anualmente uma média de 4.100 hectolitros de vinho, que corresponde a apenas 1,5% da produção total de Chablis. A única uva permitida é a Chardonnay (chamada localmente também de Beaunois). O teor alcóolico dos vinhos pode variar entre 11% e 13,5%, com um rendimento máximo de 54 hectolitros por hectare (ou 66 hl se for incluída a reserva técnica).

Seus vinhos

Os Grand Cru de Chablis são vinhos de muita personalidade, que chamam atenção pela finesse, frescor e mineralidade. Embora existam diferenças entre os vinhos dos sete climats (e, muitas vezes, mesmo dentro deles), há um conjunto básico de características comuns. Quando jovens, mostram no visual coloração amarela com reflexos verdeais, que evolui para amarelo claro. Vale lembrar que são vinhos que podem atingir seu ápice entre sete a quinze anos, às vezes até mais.

No olfativo, os aromas minerais (pedra molhada, pólvora, conchas de ostras) são comuns, geralmente acompanhados por notas cítricas (sorbet de limão é bem característico), frutas secas, mel e amêndoa. Na boca, são vinhos que combinam tensão, precisão e verticalidade, com uma estrutura rica, de múltiplas camadas. Por conta das diferenças no terroir e porque passam por menos contato com a madeira do que os Chardonnays da Côte d’Or, mostram características únicas. Por esta combinação, acabaram se tornando a referência mundial para Chardonnays diretos e verticais.

Apenas uma denominação de origem

Ao contrário da Côte d’Or, onde os melhores vinhedos ou climats são segregados em denominações de origem diferentes (Gevrey-Chambertin AOC, Chambolle-Musingy AOC, etc), em Chablis existe apenas uma AOC para os climats Grand Cru. A diferença é que o nome de cada um dos sete climats é adicionado ao nome do vinho. É algo similar ao que ocorre em outra região francesa bastante conhecida, a Alsácia.

Assim, um Grand Cru elaborado a partir de uvas colhidas no climat Les Clos, possivelmente o vinhedo mais admirado da região, carrega em seu rótulo a expressão Chablis Grand Cru Les Clos. O mesmo ocorre com os outros seis climats Grand Cru: Bougros, Preuses, Vaudésir, Grenouilles, Valmur e Blanchot. A seguir uma curta descrição de cada um deles.

Bougros

Como todos os climats Grand Cru ficam uma única encosta a nordeste de Chablis, vamos começar pelo que fica mais a noroeste, Bougros, que conta com 15,86 hectares de área. Dentre os climats, fica dentre aqueles de menor altitude média (entre 130 e 170 metros a partir do nível do mar), embora possa ser dividido em duas partes por conta de sua topografia. Boa parte dele é relativamente plana, com leve inclinação, enquanto uma parte menor tem fica em um terreno de inclinação mais abrupta.

Por conta de sua orientação sul, recebe uma abundante quantidade de luz solar, resultando em vinhos de boa intensidade, embora com certa rusticidade. São vinhos de longo potencial de evolução, embora haja diferenças dentro do próprio vinhedo. Um exemplo fica com os vinhos da Domaine William Févre, que produz duas cuvées distintas a partir deste vinhedo. Da parte mais plana (com solos mais ricos) saem as uvas para seu Bougros “tradicional”, enquanto a parte de maior aclive (até 30 graus de inclinação) é a origem da cuvée Côte Bougerots. De um terroir de solos mais pedregosos e ralos, é considerado um vinho mais complexo e de maior potencial de evolução. Outros produtores de destaque com vinhos de Bougros são La Chablisienne e Clotilde Davenne.

A evidência escrita de Bougros, que é um dos vinhedos com maior proteção aos ventos entre os Grand Crus, remonta ao século XV, com diversas versões como boguereau, bouguerot ou bouquerau. Este nome parece vir da palavra latina bucca, que deu origem ao francês bouque (estreitamento). Isso pode se referir ao rio Serein, que se estreita ao pé da colina.

Preuses

Este climat de 10,83 hectares, também chamado de Les Preuses, fica acima e a leste de Bougros, com vinhos conhecidos pelo seu potencial de evolução. Assim, como Bougros, também mostra diferenças de topografia dentro do vinhedo, com uma parte mais inclinada e outra plana. Por conta de sua exposição sul/sudoeste, a luz do sol banha as videiras por um longo período do dia.

Preuses divide a opinião dos críticos, alguns apreciando o estilo mais sóbrio e elegante, com muito potencial de evolução. Para outros, sobretudo em seus primeiros anos de garrafa, são vinhos mais fechados e menos expressivos. O climat fica ao longo de uma antiga estrada romana que costumava ser chamada de voie pierreuse (estrada pedregosa). Ao longo dos séculos, la pierreuse tornou-se la preuse. Assim, tudo indica que o nome Preuse tenha esta ligação com a palavra francesa pierre (pedra).

Entre os produtores de destaque com parcelas em Preuses ficam a Domaine Vincent Dauvissat, La Chablisienne e William Févre. Também chama a atenção o vinho produzido pela Domaine Billaud-Simon (atualmente de propriedade do mega-négociant Failveley), por muitos considerada a melhor cuvée desta tradicional vinícola.

Vaudésir

Um climat cheio de peculiaridades, por conta de sua topografia (veja o mapa abaixo). Com 15,4 hectares, ele se beneficia de uma dupla exposição: em um pequeno vale protegido dos ventos, a encosta sul oferece às uvas maturidade ideal, trazendo potência. A encosta norte, mais fria, mantém o frescor, contribuindo com elegância. Mais do que nos outros vinhedos da região, a localização das parcelas desempenha um papel importante no estilo do vinho.

Esta versatilidade, somada à qualidade de seus solos, faz com que muitos críticos considerem Vaudésir como o segundo melhor Grand Cru de Chablis, com vinhos de grande potencial, que somente atingem seu esplendor após muitos anos em garrafa. Jasper Morris, Master of Wine especializado em Borgonha, considera estes vinhos com o estilo mais próximo àqueles da Côte d’Or.

Em relação a seu nome, já usado em 1770, há duas teorias. Uma associa este pequeno vale com a palavra desire (desejo em francês). Já a outra também se refere ao vale, porém associado com Desay (nome de uma família de viticultores da área). Entre os principais produtores, destaque para as Domaines Billaud-Simon, Droin, La Chablisienne e Moreau.

Grenouilles

Com 9,69 hectares, este é o menor dos sete Grand Crus de Chablis e, também, o de menor altitude, com boa parte de suas parcelas próximas ao leito do rio Serein. É também o Grand Cru com menor opção de escolha de produtor, já que cerca de 7,3 hectares são controlados pela La Chablisienne. É a partir deste vinhedo que esta cooperativa elabora o Château Grennouiles, em homenagem a uma construção existente no local.

Os vinhos deste climat são considerados intensos e com toques picantes, possivelmente os mais encorpados entre os Grand Crus. Isso ocorre por conta da composição dos solos e pela exposição sul-sudeste, que garante maior maturação das uvas. Seu nome, com referências a partir de 1321, é bastante explícito e se refere à sua proximidade do rio. Em francês, grennouile significa rã.

Valmur

Assim como Vaudésir, também tem um formato de anfiteatro, porém com ainda menos circulação de ar e mais manutenção de calor. Por conta disso, este vinhedo de 13,02 hectares acaba resultando em vinhos mais intensos e encorpados. Porém, por conta das diferentes exposições (há partes voltadas para o sul e outras para o norte) e diferenças de solos, há uma variação significa entre os vinhos.

É um vinhedo de longa história, já que as videiras crescem aqui ao menos desde 1233. Citado como vallemeur no século XVI, este nome tem duas origens possíveis. A primeira seria a partir de vallée aux meures (vale dos espinheiros), com menção às plantas que cercavam alguns das parcelas vinhedos. A segunda hipótese tem a ver murgers, que é como os locais se referem a pilhas de pedras, possivelmente usadas para delinear propriedades. Entre os produtores com parcelas em Valmur, destaque para Ravenneau, William Févre e Droin.

Les Clos

Foi o primeiro climat a ser plantado pelos monges cistercienses e é o maior entre os Grand Crus, com 27,11 hectares. Por conta se seus solos, inclinação mais intensa e exposição sudoeste, é considerado por muitos críticos com o melhor Grand Cru de Chablis. Produz vinhos com maior potencial de álcool (às vezes até um grau acima dos demais) e mais estrutura, porém mantendo elegância e frescor.

Conta também com diferenças de solos, o que implica em vinhos de diferentes características dentro do vinhedo. Assim como a William Févre faz em Bougros, a Domaine Moreau elabora dois vinhos em Les Clos: o Clos des Hospices, com uvas da parte mais baixa, com solos mais profundos e um Les Clos “tradicional”, a partir de parcelas mais altas, que acaba sendo mais fresco e menos encorpado.

Já coberto por videiras em 1267, este climat foi chamado desde então de le clou, les clous ou le clox. O nome é uma referência aos muros de pedra que cercavam as melhores parcelas, delimitando a propriedade.  Além da Domaine Moreau, praticamente todos os melhores produtores de Chablis possuem parcelas neste vinhedo, como Ravenneau, Dauvissat, William Févre, Billaud-Simon, Droin e Clotilde Davenne.

Blanchot

Este é um climat um pouco diferente, pois embora faça parte da mesma colina que os demais Grand Crus, não tem exposição na direção do vilarejo de Chablis, mas sim para o sudeste. Por conta desta exposição, o vinhedo de 13,08 hectares é considerado o mais difícil de ser trabalhado, com colheitas sempre mais tardias que seu vizinho Les Clos.

Seus vinhos são considerados mais diretos e frescos, com notas de flores brancas acompanhando os tradicionais aromas minerais da região. Como o vinhedo recebe menor exposição solar (é o primeiro a perder o sol da tarde), muitos produtores são mais cautelosos com o uso de madeira, já que os vinhos são mais delicados. Em relação a seu nome, parece fazer referência com a cor de seus solos, que, por conta de uma maior proporção de calcário, são mais brancos que os demais. Assim como Les Clos, é um vinhedo com presença de diversos produtores de destaque, entre eles Ravenneau, Billaud-Simon, Droin, La Chablisienne, Moreau e Clotilde Davenne.

O oitavo climat?

Existe também o que poderia ser o oitavo climat na mesma encosta, chamado La Moutonne, atualmente um monopole da Domaine Long-Depaquit (que tem o négociant de Beaune Albert Bichot como controlador). Ele tem 2,35 hectares e boa parte de sua área (cerca de 95%) está em Vaudésir, com o restante em Preuses.

Esta parcela de orientação sudeste não é classificada oficialmente, mas é reconhecida pela INAO (pois foi estabelecido antes da classificação oficial da região) e em seu rótulo estampa a expressão Moutonne Chablis Grand Cru.

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; The World Atlas of Wine, Hugh Johnson

Mapas: Vins de Bougogne

Imagem: CocktailSteward, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

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