Com baixos volumes produzidos, o que esperar da qualidade da safra 2021 na Borgonha?

A safra 2021 foi muito complicada na Europa, sobretudo na França. Por conta das fortes geadas ocorridas no início de abril e de chuvas torrenciais concentradas no início do verão (que levaram a mais pragas e doenças nos vinhedos) a produção de vinhos deve cair cerca de 27%. Com isso, a França perde sua posição de segundo maior produtor mundial.

Em algumas regiões, porém, as perdas foram ainda maiores. Segundo François Labet, presidente do Bureau Interprofissionel de Vins de Bourgogne (BIVB), a perda de produção na Borgonha deve ficar entre 30% e 50%. Thiébault Huber, presidente da Confederação de Viticultores da Borgonha (CABV), deixou clara a gravidade da situação: “esta será a menor safra que a Borgonha já viu”.

Além disso, há grandes diferenças em termos de tipo de uva (como a Chardonnay tem sua floração mais prematura, as perdas foram maiores) e região. Por conta destes fatores, a estimativa é de perdas entre 70% e 80% para os brancos da Côte de Beaune e de 50% para Chablis e Mâconnais. E o quadro foi ainda pior em algumas denominações de origem específicas, como Pouilly-Fuissé. Lá, as perdas devem ficar entre 70% e 90%, segundo Aurélie Cheveau, presidente do sindicato dos produtores da região.

E a qualidade?

Se em termos de quantidade a safra 2021 pode ser chamada de desastrosa, o que dizer da qualidade dos vinhos produzidos? Uma análise das condições climáticas desde abril pode dar algumas pistas. Logo após as geadas no início de abril, os meses até junho foram secos, favorecendo a floração dos brotos e ramos que sobreviveram à geada. Porém, isso mudou, com fortes chuvas nos meses seguintes, com um agosto menos seco e quente que nos últimos anos.

De forma geral, deste modo, a safra 2021 pode ser descrita como clássica, no sentido de lembrar da Borgonha de antigamente. Nada próximo dos últimos anos, quando verões quentes e secos fugiram do padrão instável que historicamente marca a Borgonha.  Corroborando esta percepção, vários produtores apontaram que 2021 será uma safra na qual os vinhos representariam um retorno ao tipo de Borgonha tipicamente produzido antes da forte mudança climática induzida pelo aquecimento global.

Tintos clássicos

Em uma apresentação recente em Londres, Géraldine Godot, enóloga-chefe da Domaine de l’Arlot, falou mais sobre o que esperar dos vinhos da Borgonha em 2021. Segundo ela, “o ano tem sido especial, não tivemos sol no verão, com muita chuva, o que significava que houve uma pressão maior para incidência de doenças nos vinhedos, mas o resultado não foi tão ruim. E isso é positivo”.

Ela completou, afirmando que “não temos muito álcool nos vinhos, ou muito tanino, ou muita cor, mas isso é normal na Borgonha, é uma safra típica.” Godot concluiu afirmando que a vinícola não foi capaz de elaborar vinhos brancos em 2021. O foco acabou ficando nos tintos de seus vinhedos de Nuits Saint Georges, Vosne Romanée e Romanée Saint Vivant.

Esta safra quebrou o padrão verificado nos últimos anos, sobretudo para os vinhos tintos. As últimas safras na Borgonha foram tão quentes que as uvas de Pinot Noir atingiram níveis quase perigosos de maturação. Isso, por sua vez, tornou os vinhos mais concentrados e alcoólicos do que o normal. Deste modo, apesar da menor produção, os vinhos da safra 2021 podem agradar aos paladares de quem prefere um estilo mais tradicional e elegante.

Fontes: Vins de Bourgogne; Financial Times; The Drinks Business; Euronews

Imagem: Alexander Rubin

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