Consumo de vinho no Brasil: quando a Bélgica e a Índia se encontram

O Brasil é conhecido por ser um país de contrastes, e, quando falamos de vinho, não podia ser diferente. De um lado, o nosso consumo per capita, apesar do crescimento nos últimos anos, ainda é muito baixo. Com um consumo anual médio de cerca de 2,8 litros de vinho por habitante, o Brasil fica muito longe de uma posição de destaque no cenário mundial.

Para ter uma referência, os portugueses consomem aproximadamente 59 litros de vinho por ano. Mesmo os habitantes de países próximos, como Argentina e Chile, bebem muito mais vinho que os brasileiros, com consumo anual médio de 26,8 e 15,3 litros, respectivamente. A situação do consumo no Brasil também é delicada do ponto de vista histórico: há exatos cinquenta anos, em 1971, o brasileiro consumia em média 3,8 litros de vinho.

Grande diversidade na oferta

Por outro lado, todavia, o consumidor brasileiro de vinhos tem acesso a uma impressionante diversidade de rótulos e produtores. Apesar dos absurdos impostos sobre a importação e produção de vinhos no Brasil, não faltam opções para quem quer vinhos de qualidade. Além da oferta de vinhos nacionais, o brasileiro tem um acesso quase ilimitado a vinhos de outros países da América do Sul. Alguns vinhos destes países, difíceis de serem encontrados na Europa e Estados Unidos, estão disponíveis por aqui.

Mesmo para vinhos de outros países, a oferta vem melhorando rapidamente no Brasil. Em alguns nichos, é possível encontrar vinhos raros, de produtores muito disputados ao redor do mundo. Isso se deve, em grande parte, ao paradoxo de sermos um país que bebe poucos vinhos. Imagine um produtor valorizado e de pequena produção: em países de maior consumo per capita, seus vinhos esgotam quase que imediatamente, enquanto no Brasil, mesmo com alocações pequenas, ainda é possível adquiri-los. É o paradoxo brasileiro.

Distribuição de renda e público cativo

O que explica este paradoxo é, no fundo, a péssima distribuição de renda no Brasil. Mesmo com impostos que levam os vinhos a custar entre 2,5 e 3 vezes mais do que o equivalente no exterior, uma parcela dos brasileiros segue comprando vinhos ativamente. Em um país de 213 milhões de habitantes, uma pequena parte dos brasileiros consegue fazer a diferença no consumo de vinhos mais caros e exclusivos.

Em praticamente todo o mundo, o vinho se tornou um produto “da moda” e que traz status. E isso ocorre também no Brasil. Se no passado os endinheirados brasileiros se satisfaziam bebendo vinhos simples, na maioria italianos e portugueses, agora não pode haver um evento social sem uma garrafa de um bom Borgonha. Assim, uma pequena parcela da população acaba respondendo por uma significativa proporção do que é gasto com vinho no Brasil.

Esta tendência é confirmada pelos números da Wine Intelligence, uma consultoria britânica que analisa também o mercado brasileiro.  Segundo relatório da consultoria, duas categorias de consumidores, que eles chamam de Enthusiastic Treaters e Engaged Explorers, são os pilares do crescimento recente no consumo per capita no Brasil. Estes consumidores representam apenas 29% dos consumidores regulares de vinho, mas respondem por 62% do total gasto com vinho no país.

Belíndia

Em 1974, o economista Edmar Bacha criou o termo Belíndia, usado para descrever o que vinha ocorrendo no Brasil, sobretudo como resultado de políticas econômicas que aumentaram a concentração de renda no país. Para ele, parte do Brasil representaria a Bélgica, um país de pequena população e alto poder aquisitivo. De outro, ficava a Índia, com uma quantidade enorme de gente com baixa renda e poucas oportunidades.

Ao verificar o que ocorre com o consumo de vinho no Brasil, claramente a “porção Bélgica” se destacando na recente tendência de crescimento. O consumo segue aumentando de forma acelerada, mesmo apesar de impostos altíssimos e dólar nas alturas. O vinho de qualidade passou a ser parte do “kit status”, principalmente para jovens profissionais e empreendedores.

Do outro lado, porém, apesar de algum avanço, boa parte da população brasileira segue distante do vinho de qualidade, até porque não custa lembrar que vinhos de uvas americanas ou híbridas, de menor qualidade, ainda dominam uma parcela significativa do mercado brasileiro. Um cenário desanimador, parte da triste realidade que o Brasil vem vivendo nas últimas décadas.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

Fontes de dados: Wine Intelligence; OIV, OMS

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