Degustação de vinhos brancos icônicos: algumas estrelas estão no céu, outras dentro de garrafas

Alguns projetos levam um pouco mais que o previsto, mas certamente valem a pena. A cerca de dois anos e meio reuni um grupo de amigos, com o intuito de organizar uma degustação de vinhos brancos de alta gama, projeto que intitulamos “ícones brancos”. Foram meses escolhendo, consultando as adegas e adquirindo os vinhos no exterior. Tudo pronto para o encontro, hora de degustar os vinhos, no final de março. Sim, março de 2020.

Como você pode imaginar, os planos originais foram por água abaixo. Mas paciência é uma virtude que rende frutos. Pouco mais de 19 meses depois, finalmente chegou a hora de provar os vinhos. E, muito mais do que isso, constatar com grande alegria que todos superaram a pandemia, a maioria sem ter sido atingida pela maldito vírus, outros sem a mesma sorte, mas já plenamente recuperados. Confrades a postos, vinhos prontos. Mas antes disso, quais seriam estes vinhos brancos icônicos?

Ícones brancos

Existem vinhos, muitos deles brancos, que são inesquecíveis. Mas como montar um painel com tantas opções, sem que os confrades tenham que sair do encontro em ambulâncias ou recebendo glicose na veia? Geografia é um excelente ponto de partida, mas neste sentido, há um país que voa muito alto. A França entrou com cinco representantes, ainda deixando de fora maravilhas como Chenin do Loire, brancos do Jura ou do Rhône norte.

Se o objetivo era degustar 10 vinhos, faltavam cinco. Quatro países europeus não podiam faltar (Itália, Alemanha, Espanha e Portugal), além de um representante do Novo Mundo. Friuli ou Abruzzo? Mosel ou Rheingau? Tondonia ou Castillo de Ygay? Nova Zelândia ou Argentina? Com uma boa dose de subjetividade e contando com o que havia nas adegas, as escolhas foram feitas.

O mesmo vale para as safras. No mundo perfeito, talvez valesse à pena comparar vinhos da mesma safra. Mas isso não tem qualquer possibilidade prática, nossa ideia era provar vinhos já no seu auge, e a curva de evolução de cada um varia bastante. Sem contar com as questões logísticas, não foi fácil garimpar vinhos deste calibre em adegas e lojas ao redor do mundo, ainda mais colocar grandes limitações em relação à safra. Em poucas palavras, era “o que temos para hoje” (mesmo com um longo planejamento, diga-se de passagem).

Quais vinhos?  

A França dominou o painel, em todos os sentidos. Que tarefa inglória escolher um representante da Côte D’Or! As opções são praticamente infinitas, mas, por conta de diversas circunstâncias, optamos por um Bâtard-Montrachet Grand Cru 2009 da Domaine Leflaive. Mas beber brancos de alta gama não poderia excluir Chablis, e a escolha foi um pouco menos difícil. A opção foi por um Les Clos Grand Cru 2012 de Vincent Dauvissat.

Para outras regiões francesas, optamos por um Silex 2009, uma das últimas safras do genial Didier Dagueneau, enquanto a Alsácia foi representada pelo elegantérrimo Clos de Sainte Hune 2009, da Domaine Trimbach. Em Bordeaux, a escolha recaiu sobre o raro Haut Brion Blanc, o vinho mais caro e mais difícil de obter de todo o painel. Não poderia faltar um Champagne para abrir os trabalhos, e a escolha foi por Bollinger La Grande Année 1997.

A disponibilidade nas adegas ajudou muito na escolha dos demais países. Se podíamos ter comprado um Castillo de Ygay Gran Reserva branco, havia um Tondonia GR 1991 a postos. O mesmo para a Itália, onde o provocante Trebbiano d’Abruzzo 2010 da Valentini estava disponível, ou para Alemanha, com o sedutor Scharzhofberger Spätlese 2007 de Egon Muller. Fecharam o painel o Buçaco Branco 2001 e o argentino Adrianna Vineyard White Bones Chardonnay 2015, da Catena Zapata.

Um paraíso de sabores e texturas

O evento foi realizado na sala privada de um restaurante em São Paulo, com organização impecável. Um ponto de destaque foi o conjunto de taças Riedel Winewings, apresentadas por um representante da empresa e que trouxeram ainda mais brilho aos vinhos (desculpe pelo merchand, mas foi merecido). E como foram os vinhos? Se sou crítico da prática de cronistas do vinho falarem bem dos exemplares que recebem de graça de importadoras e etc., também não sou muito fã de dar notas para vinhos. Prefiro aqui passar pelas linhas básicas, mas adiante (em outras pautas) trarei uma descrição mais detalhada de cada um.

Infelizmente, dois vinhos acabaram prejudicados. O Tondonia pelo TCA (sim, vinhos top também podem estar bouchonée) e o Batârd-Montrachet, por uma oxidação que me pareceu incomum para um vinho deste nível da safra 2009. Na escala dos prazeres, tanto o White Bones como o Buçaco mostraram seus encantos, com uma certa rusticidade na comparação com os demais.

Sem colocar os vinhos em ordem, o Valentini se mostrou uma verdadeira metamorfose ambulante, com muita personalidade e vivacidade, enquanto o Egon Muller mostrou seu temperamento clássico e preciso, aquela combinação perfeita entre acidez marcante e açúcar residual, que somente os grandes vinhos alemães conseguem entregar.  

O clube dos franceses

O Champagne estava simplesmente divino, com acidez espetacular e impressionante complexidade e charme (La décadance em grande estilo) para um espumante de quase 25 anos. Já o Clos de Sainte Hune novamente evidenciou a elegância e verticalidade que a Riesling consegue atingir nesta cuvée, que para mim destoa da estrutura mais potente da grande maioria dos Rieslings alsacianos.

Les Clos de Dauvissat foi também um capítulo à parte. Um Chablis de alta estirpe, mostrando a tensão, mineralidade e complexidade que este terroir, tanto castigado pelas intempéries climáticas, consegue expressar quando a natureza permite, desde que nas mãos de um produtor tão talentoso. Frescor, complexidade e muita precisão também não faltaram no Silex, e que evidenciaram o altíssimo patamar que a Sauvignon Blanc e o terroir de Pouilly-Fumé podem atingir.

Chave de ouro

No caso do Haut Brion, vale um comentário adicional. Na safra 2002 foi elaborado com um corte pouco usual na época (78% Sauvignon Blanc e apenas 22% Sémillon), mas se mostrou um vinho grandioso. Um incrível conjunto de alta complexidade, com múltiplas camadas de sabores e texturas, justificou a fama de ser um vinho unicórnio. A cada safra são vendidas cerca de 500 caixas e felizmente tivemos a oportunidade de provar esta preciosidade, que, com quase 20 anos de estrada, ainda se mostrou jovem e com imenso potencial pela frente.  

Em resumo, um encontro de amigos e degustação memoráveis. Mais do que um exercício hedonista que despertou os sentidos, uma prova de como diferentes vinicultores e terroirs conseguem criar e contribuir para verdadeiras obras de arte engarrafadas. São vinhos únicos, que servem para confirmar mais uma vez que qualidade impecável, grande potencial de guarda e complexidade não são monopólios dos vinhos tintos.

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