Eventos climáticos extremos e o preço dos vinhos: novos riscos para a safra 2022

A natureza tem um enorme peso na qualidade do vinho. Quase todos os vinicultores deixam claro que um pré-requisito básico para produzir um bom vinho é que as uvas sejam de alta qualidade. E, dentre as variáveis que determinam a qualidade das uvas, o impacto das condições climáticas é fundamental.

Não é à toa, portanto, que existe uma preocupação enorme com os impactos do aquecimento global sobre a viticultura. Mais do que somente uma tendência de temperaturas médias mais altas nas principais regiões produtoras de vinho do mundo, o que se vê é uma maior ocorrência de fenômenos climáticos extremos. Nos últimos anos, cresceu a incidência de geadas, chuvas de granizo, queimadas e ondas fortes de calor, entre outros eventos de grande impacto sobre os vinhedos.

Mais uma safra complicada?

O que esperar da safra 2022 na Europa dentro deste contexto? Se 2021 foi desastrosa para muitas regiões, com fortes geadas devastando vinhedos ao redor do continente, sobretudo na França, 2022 já vem dando dores de cabeça a muitos viticultores. Embora com menor gravidade do que no ano passado, em abril deste ano, geadas ocasionaram perdas em diversas regiões francesas, com destaque para Chablis.

Agora que o risco de geadas acabou, outros riscos surgiram e já estão afetando os vinhedos europeus. Muitos vinhedos franceses foram afetados por fortes chuvas de granizo neste mês de junho. Tempestades de granizo atingiram regiões vinícolas em toda a França, com destaque para as regiões de Savoie, Bergerac, Loire, Armagnac e Roussillon, todas trazendo grandes danos.

Em Armagnac, por exemplo, produtores descreveram cenas “apocalípticas” com o granizo destruindo faixas de videiras em mais de 4.000 hectares na semana passada. Olivier Goujon, chefe da associação local de produtores, disse à agência de notícias AFP que algumas pedras de granizo eram “maiores que bolas de golfe”. Resta agora contabilizar as perdas, que são quase totais em alguns vinhedos.

Impacto futuro

O impacto das tempestades de granizo, porém, não é restrito somente à produção desta safra. Alain Deloire, professor-pesquisador do Instituto Agro de Montpellier, acredita em impacto também para a colheita de 2023. Em entrevista à publicação francesa Vitisphere, ele explicou o impacto deste tipo de evento climático sobre as videiras.

Em primeiro lugar, existem efeitos decorrentes da perda total ou parcial das folhas dos ramos primários de cultivo. “A desfolhação complicará a formação de botões latentes e impactará os rendimentos futuros de 2023”, adverte ele. Para piorar a situação, a redução da área de folhas afetará o armazenamento de carbono nas raízes, no tronco e nos ramos. Isso pode prejudicar o desenvolvimento dos brotos da próxima safra, resultando em menor rendimento.

Novos riscos

Mas não só as tempestades de granizo representam risco para a safra 2022. Uma onda de calor sem precedentes atingiu os vinhedos do sul da França, se espalhando em direção a Bordeaux e ao Vale do Rhône. Nas áreas mais próximas do Mediterrâneo, especialistas estão preocupados com um efeito do calor extremo, semelhante ao de junho de 2019. Eles também temem tempestades violentas de granizo no final da semana.

“O termômetro está subindo e deve se aproximar ou até mesmo ultrapassar os 40°C no final da semana”, alertou Emmanuel Buisson, diretor de inovação da Weenat – Weather Measures. Os cenários mais pessimistas preveem até seis dias de onda de calor. “É entre Biarritz e Nantes que a situação será mais extrema”, afirmou o climatologista, também em entrevista à Vitisphere.

Buisson está também preocupado com o déficit de pressão de vapor. Este indicador mede os níveis de poder de secagem que o ar tem sobre a planta. Basicamente, é a umidade que é retirada da planta pela atmosfera. “No Sudoeste, como no Sudeste, até Lyon, o ar quente e seco vai sugar a umidade da planta, como foi o caso da Provença e de outros vinhedos em 2019 e 2020″. Ele teme que, por conta disso, muitas frutas percam água e atrofiem.

Impacto nos preços

Esta combinação de condições climáticas extremas e seus impactos sobre a qualidade e quantidade de uvas produzidas vão certamente afetar quem aprecia uma boa taça de vinho. Não bastasse os impactos inflacionários da quebra de cadeias produtivas e de comércio decorrentes da pandemia e os efeitos da guerra na Ucrânia, estes fatores climáticos servem para puxar para cima o preço dos vinhos.

A quebra da safra 2021 foi apontada como um dos principais fatores por trás do forte aumento no preço dos vinhos da Borgonha vista nos últimos meses. Mais do somente afetar os preços desta safra, o que se vê agora são preços mais altos em geral, inclusive para os vinhos de safras anteriores. O temor é que a recorrência de efeitos climáticos extremos possa perpetuar esta tendência de preços crescentes, não somente para a Borgonha, mas para várias das melhores regiões produtoras de vinho no mundo.  

Fontes: Vitisphere; Vitisphere; Wine Searcher

Imagem: Keli Black via Pixabay

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