História do vinho: muito antes dos franceses, quem seriam os pioneiros a descrever denominações de origem?

Se o vinho pode representar um universo quase que indecifrável para muita gente, os sistemas de classificação podem servir como uma senha ou chave. Seja pelas características e métodos do local de produção (o chamado terroir) ou pela reputação do produtor (como usado nos vinhos da região do Bordeaux), os vinhos podem ser classificados em diferentes categorias.

Isso serve tanto para dar ao consumidor alguma noção de qualidade, mas também das características do vinho, baseadas nas especificidades de clima, solo ou métodos de produção. Se o sistema de classificação de origens adotado pela França em 1935 é até hoje usado e copiado por diversos outros países, este tipo de segmentação de vinhos é muito mais antigo. Podemos dizer que ela existe muito antes da França sequer poder ser chamada de civilizada.

Práticas milenares

Embora o Egito não tenha sido o berço da vinicultura e tenha importado vinhos de regiões próximas por muitos séculos, é nesta civilização milenar que foram encontradas as primeiras evidências de um sistema de classificação de vinho de acordo com suas origens. Uma importante descoberta arqueológica deixou isso muito claro, após uma minuciosa análise mostrar a diversidade dos vinhos encontrados no palácio de Malkata, em Tebas.

Datadas da época do reinado de Amenhotep III, que teria sido o soberano supremo do Egito entre 1390 e 1350 antes de Cristo, as evidências mostram que já existia um sofisticado sistema de classificação de vinhos. Na época, os vinhos eram armazenados em ânforas, mas que continham uma espécie de “rótulo”, com informações sobre o seu conteúdo.

Neste conjunto arquitetônico de cerca de 35 hectares foi descoberta uma grande área dedicada somente ao armazenamento de alimentos e bebidas. Mais de 1.400 ânforas já foram encontradas, dos quais 285 continham vinho, segundo análises químicas. Se a ciência confirmou a existência do vinho nos recipientes, estes “rótulos”, chamados de ostracas, porém, informaram muito mais.

Qualidade e origem

Assim como rótulos modernos, as ostracas traziam importante informações sobre a produção, origem e tipo de vinho contido nestas ânforas. A palavra egípcia para vinho (lrp) era ocasionalmente substituída por “genuíno”, “bom” ou “muito bom”, ou até mesmo “espetacular”. O ano no qual o vinho foi apresentado ao faraó, possivelmente a safra no qual foi elaborado, também estava presente no rótulo.

A ostraca também deixava clara qual era a região de origem do vinho.  Estas informações permitiram aos arqueólogos concluir que a principal região de vinhos finos no Egito era situada no nordeste do delta do Nilo. Porém, existiam diversas outras regiões, claramente documentadas nos rótulos. E as informações iam além: também os nomes de propriedades específicas eram descritos em algumas ostracas.

Da mesma forma que hoje podemos saber pelo seu rótulo que o Château Haut Brion é uma propriedade de destaque na denominação de origem Pessac-Léognan, no Bordeaux, as ostracas traziam a mesma informação a mais de 3.000 anos. O nome das propriedades onde o vinho era elaborado também era mencionado, assim como, em alguns casos, quem foi o enólogo responsável pela sua elaboração.

Informações adicionais

Na comparação com os rótulos modernos, as ostracas traziam também informações adicionais, o que as tornavam uma fonte de informações até mais rica e completa do que temos hoje. Elas também deixavam claro para qual ocasião ou evento o vinho era mais adequado. Seja para uso como oferenda em celebrações religiosas, para beber por prazer ou mesmo para a jornada final do faraó, o conteúdo das ânforas era minuciosamente descrito.

Uma informação importante, porém, não estava disponível: quais seriam a uvas usadas para a elaboração destes vinhos. Análise químicas mais detalhadas buscam responder esta questão no futuro, mas isso, porém, não coloca este sistema de classificação em desvantagem ao que temos hoje.

Se você analisar detalhadamente uma garrafa de Grand Cru ou Premier Cru tinto da Borgonha ou um Barolo, não irá achar no rótulo as informações de suas uvas (Pinot Noir e Nebbiolo, respectivamente). Porém, quem conhece o sistema de denominações de origem destes vinhos já sabe esta informação. Possivelmente o mesmo ocorria no Egito antigo, bastaria saber quais eram as uvas cultivadas em propriedades como Nebmaatre ou Amenhotep. Um brinde aos egípcios!

Fonte: Ancient Wine, Patrick McGovern

Imagem: Carabo Spain via Pixabay

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