Marsannay, o village menos badalado da Côte de Nuits

Os vinhedos de Côte de Nuits, com apenas 16 km de extensão, produzem os mais icônicos vinhos tintos elaborados com a Pinot Noir do mundo. Nomes famosos como Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny e Gevrey-Chambertin fazem parte desse território mágico.

A Côte de Nuits é dividida em nove zonas de produção, também conhecidos como villages, cada qual com uma Apelação de Origem Controlada (AOC) própria. E no meio de tantos nomes famosos, Marsannay talvez seja a AOC menos conhecida e menos badalada. E é dela que iremos tratar na coluna desse mês

A paisagem de Marsannay

Foto: Acervo pessoal

Essa foto, tirada numa rápida parada durante a viagem pela região, retrata muito bem Marsannay. Diferente das demais apelações, as colinas e encostas ocupam áreas e altitude relativamente menores. Em função dessa característica topográfica, a maior parte dos vinhedos está plantada nas áreas mais planas e em solos menos nobres.

Ainda assim, as colinas são capazes de bloquear os ventos e toda área plantada conta com exposição leste e sudeste, fator crucial para o adequado amadurecimento das uvas na região.

Um pouco de história

O primeiro registro de produção de vinho é do século VII, no ano de 658, mesmo período em se estabeleceu o Monastério de St-Benigne, em Dijon. Registros históricos (incrível a riqueza das estatísticas na região) mostram que, em 1648, os vinhos de Chenôve (que hoje faz parte da zona de produção de Marsannay) eram vendidos a preços superiores aos de Gevrey-Chambertin.

A elevação ao status de AOC só aconteceu em 1987, o que faz de Marsannay a mais recente AOC da Côtes de Nuit. A partir daí grandes players, como Louis Jadot, Joseph Roty, Louis Trapet e Denis Morter adquiriram vinhedos na região, o que passou a chamar maiores atenção para a área e elevar a qualidade do vinho local.

A única AOC que produz vinho Rosé na Bourgogne

Em 1919, Joseph Clair “inventou“ o Marsannay Rosé. A região vivia tempos difíceis. Mal tinha se recuperado da filoxera, atravessava uma crise econômica e social que se seguiu a Primeira Grande Guerra. A área de vinhedos tinha encolhido e, em função da proximidade com Dijon, parte foi absorvida pela cidade.

Um vigneron local, Joseph Clair, avô de Bruno Clair, hoje um dos mais importantes de toda a Bourgogne, pressionado para antecipar o fluxo de caixa, teve a ideia de criar um rosé. Para tanto, utilizou parte das uvas (Pinot Noir) que seriam usadas na produção de seus tintos. Dois meses após a colheita, no final de novembro, pessoalmente levou algumas barricas para Dijon e as vendeu diretamente aos bares e restaurantes locais. Foi um enorme sucesso e, de certa forma, salvou a região na medida em que outros produtores o seguiram. Hoje o Rosé é uma das principais identidades da desta denominação de origem.

Em 2017, o rosé representou 15% da AOC, sendo Marsannay o único Village autorizado a produzir esse estilo em toda a Bourgogne. Com cerca de 1,5 mil hectolitros produzidos anualmente, é basicamente consumido localmente. Lembrando que, por estar na Bourgogne, seus preços são significativamente superiores aos demais rosés produzidos na França. Mas como veremos mais adiante, também possuem um estilo próprio.

Marsannay hoje

Em 2017 a AOC contava com 227 hectares de área plantada. Cerca de 67% da produção era de tinto, 18% branco e 15% rosé. Não há nenhum vinhedo classificado como Premier Cru ou Grand Cru na área.

Além de ser o único Village autorizado a produzir vinhos rosés na Bourgogne, Marsannay produz mais da metade dos vinhos brancos da Côte de Nuits. E ótimos brancos, como veremos a seguir. São três sub-zonas de produção: Marsannay-la-Côte (que inclui a maioria dos vinhedos), Couchey e Chenôve.

Embora não possua vinhedos Premier Cru, há demandas nesse sentido. Como seria de se esperar, os melhores climats estão localizados nas colinas. O vinhedo de Longeroles, assinalado no mapa abaixo, talvez seja o candidato mais forte a se tornar um Premier Cru e já há demandas formais nessa direção. Mas esse processo na Bourgogne é extremamente lento e complicado.

O estilo dos vinhos de Marsannay

Tintos: geralmente associados (e apreciados) pela fruta fresca marcante. São vinhos de corpo médio, com boa textura, elegantes e para serem consumidos jovens, por não possuírem a estrutura necessária para uma boa evolução.

Brancos: trazem normalmente frutas como pera e maçã.  Boa acidez e corpo de médio para baixo. Tendem a ser vinhos extremamente elegantes.

Rosés: são vibrantes, com boa acidez e fruta vermelha fresca. Com mais corpo que o típico rosé da Provence, mas sem a potência de um Tavel. Um rosé de caráter muito particular.

Principais produtores de Marsannay

Bruno Clair é o grande nome da região. Possui 21,2 hectares de vinhedo e não é importado para o Brasil. Já Sylvain Pataille, trazido ao Brasil pela importadora Anima Vinum, possui 12 hectares e se destaca pelo engajamento e respeito pela biodiversidade. Utiliza métodos orgânicos e naturais em suas vinhas e trabalha a terra com cavalo, ao invés do trator.

Uma boa opção na escandalosamente cara Côtes de Nuits

Uma despretensiosa e rápida pesquisa no site WineSearcher indicou que os vinhos da AOC Marsannay possuem um preço médio abaixo das demais AOCs da Côte de Nuits. Mas antes que um dos leitores dessa coluna se anime, vale lembrar que o simples fato de estar localizado onde está, o preço ao consumidor, na França, parte de € 20, o que no Brasil nos leva para patamares superiores a R$ 400, no câmbio atual.

Ainda assim é uma boa alternativa para se apreciar um tinto com boa fruta, elegante e delicado, assim como ótimos brancos e um rosé certamente diferente do usual.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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