Meursault: sinônimo de vinhos brancos de qualidade na Borgonha

Dentro dos elevados padrões da Borgonha, Meursault é uma denominação de origem marcada por superlativos. O charmoso vilarejo é somente superado, dentre aqueles que fazem parte da Côte d’Or, por Beaune no que diz respeito a restaurantes, comércio e lazer. É o maior produtor de vinhos brancos da Côte d’Or, além de manter a segunda colocação (somente atrás de Gevrey-Chambertin) quando é contabilizada sua área de vinhedos.

E o destaque não fica somente em termos quantitativos. Apesar de não ter nenhum vinhedo classificado como Grand Cru, conta com 18 climats Premier Cru, produzindo alguns dos melhores vinhos brancos de toda a Borgonha. Mesmo seus vinhos classificados como Village se destacam pela excelente qualidade, e muitas vezes chegam a ser comparados com os Premiers Crus de outras regiões.

Os vinhos de Meursault, sobretudo seus brancos, que correspondem a cerca de 98% da produção local, vêm sendo por décadas reconhecidos entre os melhores da Borgonha. Por muito tempo, algo que vem mudando recentemente, seus vinhos foram associados com um estilo mais untuoso e intenso, muitas vezes como resultado de maior tempo em contato com barris de carvalho. E esta característica reflete a geografia da região, já que, por conta do perfil de solo, é possível construir adegas subterrâneas, algo que não é factível em muitos vilarejos da região.    

Centro do vilarejo de Meursault

Um pouco de história                                

Meursault tem uma longa história, com registros de um acampamento romano onde atualmente fica o vilarejo. Os antigos restos do forte romano ainda são visíveis na colina (conhecida e sinalizada como La Montagne) acima do vilarejo. E o próprio nome Meursault teria origem nesta época.

Segundo a versão mais aceita, o Ruisseaux des Cloux, um pequeno córrego que passa pelo vale de Auxey-Duresses e cruza a região, teria dado origem ao nome. Por conta deste curso d’água estreito, os romanos teriam chamado a região de Muris Saltus (o salto dos ratos, em uma tradução livre). O fato é que até hoje os moradores de Meursault são chamados de Murisaltiens.

Meursault e seus vinhos

A ligação de Meursault com os vinhos ganhou maior destaque no final do século X, quando Oto II, Duque da Borgonha, cedeu diversos vinhedos à Abadia de Citêaux. Deste modo, o cultivo de vinhas na região pelos monges cistercienses teria precedido inclusive aquela em Vougeot. Juntas, estas duas regiões representaram os maiores centros de vinificação dos cisterciences na Idade Média.

Mas a Meursault do passado era muito diferente da atual. Nos anos 1700 eram os vinhos tintos que predominavam na região, algo que somente mudaria no século XIX, quando os brancos passaram a ser maioria. A denominação de origem Meursault for criada em 1937.

Área de vinhedos e produção

Atualmente a denominação de origem Meursault tem uma área demarcada de 449,69 hectares, dos quais 133,63 hectares (30%) são classificados como Premier Cru. Cerca de 87% da área demarcada está atualmente em produção (391,7 hectares), sendo 97% plantados com Chardonnay. Os demais 3% são cultivados com Pinot Noir.

A produção média entre 2014 e 2018 foi de 17.875 hectolitros, que correspondeu a cerca de 8% do total da Côte de Beaune no mesmo período. Desta produção, aproximadamente 27% foram classificados como Premier Cru. A produção média de vinhos brancos no mesmo período foi de 17.491 hectolitros, superando com grande margem os “rivais” Puligny-Montrachet (10.655 hl) e Chassagne-Montrachet (10.489 hl).

Estilos de vinhos

Embora exista uma associação direta entre Meursault e um estilo de vinhos brancos mais opulentos, ricos e amanteigados (com aromas definidos em francês como beurre et noisettes – manteiga e avelãs) é difícil generalizar para uma área tão extensa. Este estilo talvez tenha sido predominante no passado, por conta da influência dos négociants. Mas isso vem mudando.

Muitos são vinhos brancos mais untuosos (sobretudo na comparação dentre os três vilarejos mais reconhecidos por seus vinhos brancos na Côte d’Or), mas hoje existe uma colcha de retalhos em termos de estilos. Por exemplo, seus vinhos classificados como Village apresentam dois estilos distintos, sobretudo por conta de terroirs diversos. Algo em comum, porém, é que os vinhos brancos de Meursault, seguem mostrando alta acidez e enorme poder de evolução. Em relação aos tintos, são considerados mais delicados do que intensos, com destaque para os excepcionais vinhos de Santenots.

Geologia e vinhedos

Como em praticamente toda a Borgonha, a geologia explica muito da composição dos vinhedos em Meursault.  O calcário comblanchiano duro que desaparece no subsolo ao redor de Nuits-Saint-Georges reaparece em Meursault e, seguindo rumo ao sul, explica porque os vinhos tintos dão lugar aos brancos. Isso esclarece também por que muitos vinhedos de Meursault são compostos por diferentes terraços, resultado de sua utilização como pedreiras no passado. Os solos, em geral, têm uma elevada proporção de calcário, tornando-se mais leves e pedregosos na direção sul, na direção de Puligny-Montrachet.

De forma geral, os vinhedos de Meursault podem ser divididos em três blocos. Ao norte, na divisa com Volnay e Monthélie, ficam os poucos vinhedos cultivados com Pinot Noir desta denominação de origem. A segunda área fica ao centro, próximo ao vilarejo e com maior influência dos ventos frios que descem pelo vale a partir de Auxey-Duresses.

Já a área ao sul concentra a maior parte dos vinhedos Premier Cru de Meursault, em um bloco que começa ao sul do vilarejo e se estende até a divisa com Puligny-Montrachet. Destaque também para os vinhedos que se situam na aldeia de Blagny, que tem uma denominação de origem à parte.

Rótulos confusos

Os vinhos elaborados em Meursault muitas vezes podem causar confusão por conta de seus rótulos. Os vinhedos do climat Premier Cru Santenots, que fazem parte da denominação de origem Meursault, mas ficam na divisa com Volnay, são cultivados tanto com uvas brancas como tintas. Os vinhos tintos são rotulados como Volnay-Santenots, enquanto os brancos como Meursault ou Meursault-Santenots. Porém, para os climats Premier Cru Les Caillerets e Les Cras, também na divisa com Volnay, todos os vinhos, tanto brancos como tintos, são comercializados como Meursault.

Algo semelhante ocorre nos vinhos elaborados a partir dos vinhedos da aldeia de Blagny, que é dividida entre as communes de Meursault e Puligny-Montrachet. Quando elaborados em tinto, os vinhos são rotulados como Blagny. Porém, quando são brancos, podem ser comercializados como Meursault-Blagny ou Meursault (vinhedos localizados nesta commune) ou como Puligny-Montrachet, geralmente com referência a qual vinhedo em Blagny.

Principais destaques

Os principais Premiers Crus de Meursault ficam ao sul, próximos a Puligny-Montrachet e podem ser divididos em dois grupos. Aqueles considerados de melhor qualidade no extremo sul, com destaque para Les Perrières. Este vinhedo de 13,7 hectares, com quatro lieux-dits distintos e diversos terraços (era uma pedreira no passado) é considerado o principal candidato a Grand Cru na região, dando origem a vinhos precisos e de muita mineralidade.

Logo abaixo de Les Perrières fica Les Charmes, o maior Premier Cru de Meursault (31 hectares) e considerado o melhor vinhedo da denominação para quem prefere vinhos mais redondos e suntuosos. Dentro deste mesmo bloco e ao norte dos dois anteriores fica Les Genevrières, que com quatro lieux-dits, é por muitos considerado como o Meursault mais típico, uma espécie de mix dos anteriores.

O segundo grupo de Premiers Crus fica mais próximo do vilarejo, ao norte e com maior influência dos ventos frios que vem do vale. Destaque para Le Porusot/Poruzot, Les Bouchères e Les Gouttes d’Or.                                    

Vinhedos Village

Se os climats Premier Cru arrancam suspiros de quem aprecia vinhos brancos de qualidade, muitos vinhedos Village de Meursault também são altamente recomendados. Há quem fale (embora não exista nada oficial) dos Deuxième Crus, representando os lieux-dits Village que ficam acima do bloco de vinhedos Premier Cru.

Dentre eles, destaque para os vinhedos Les Narvaux, Les Tillets, Les Clous, Les Casse Têtes, Les Vireuils, Le Tesson e Les Meix-Chavaux. Em geral, são vinhos mais diretos e verticais, contrastando com o estilo mais opulento dos vinhedos Village de outras partes desta denominação de origem. Vale lembrar que Meursault tem cerca de 316 hectares de vinhedos Village, mais que Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet somados.      

Produtores em evidência                                        

Até por conta da possibilidade de construção de adegas subterrâneas e maior atividade comercial do vilarejo, Meursault é um dos grandes centros de concentração de produtores da Côte d’Or. No total, são mais de 150 vinícolas sediadas dentro desta denominação de origem, incluindo vários nomes lendários da Borgonha.

Entre eles, destaque para nomes clássicos como Domaine Coche-Dury, Domaine de Montille, Domaine Jacques Prieur, Domaine Armand Ente, Domaine des Comtes Lafon e Domaine Roulot. Além disso, Meursault também atrai alguns dos nomes que vem ganhando maior espaço na Borgonha, entre eles Domaine Tessier, François Mikulski e Domaine Pierre Girardin.

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; Burgundy Report

Mapa: Vins de Bourgogne

Imagens: Arquivo pessoal

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