Mitos do vinho: é verdade que somente vinhos tintos podem evoluir e durar muito na adega?

De forma geral, na hora de pensar em vinhos para guardar na adega, as pessoas pensam somente em vinhos tintos. A percepção de muita gente é que são só os tintos que ganham complexidade e equilíbrio com o passar do tempo. Por outro lado, os vinhos brancos e rosés serviriam mais para consumo imediato.

Mas será que isso corresponde à verdade? Todos os vinhos tintos são feitos para consumo no futuro? E quanto aos brancos e rosés, será que eles ganham qualidades com o passar do tempo? Para responder estas e outras perguntas, vale a pena entender quais são os fatores que permitem aos vinhos desafiar o tempo.

Três fatores

Para um vinho resistir bem ao tempo, três fatores contam bastante, podendo ser considerados como os “conservantes” dos vinhos. Talvez o mais conhecido seja o tanino, presente sobretudo nos vinhos tintos, já que tem sua origem nas cascas das uvas. Os taninos são antioxidantes naturais e grande facilidade para interagir com outros componentes. Por exemplo, eles facilmente se ligam ao oxigênio (que é o principal fator por trás da oxidação) e acabam tendo um papel decisivo para a evolução do vinho.

Mas o tanino está longe de ser o único fator. A acidez também é decisiva. Quanto maior a acidez do vinho, maior será sua capacidade de resistir ao tempo. Aliás, para entender como isso funciona, basta pensar em exemplos fora do mundo do vinho. Quanto tempo uma garrafa de vinagre pode durar aberta? Ou mesmo picles, o quanto colocar cebolas ou pepinos em um líquido ácido aumenta sua durabilidade?

O terceiro fator a ser levado é a quantidade de açúcar. O açúcar funciona como um importante conservante. Basta pensar na comparação entre o tempo que pode durar uma fruta e uma geleia, ou mesmo naquele frasco de mel, que parece não perder suas propriedades mesmo após meses aberto. No vinho é a mesma coisa, mantidas as outras variáveis, aqueles com mais açúcar tendem a durar mais.

Brancos de longa guarda

Baseado nos fatores acima, você já deve ter notado que longo envelhecimento não é um privilégio somente de vinhos tintos. Por exemplo, vinhos brancos de uvas com acidez elevada, como Riesling ou Chenin Blanc, podem mostrar um grande potencial de guarda. E isso aumenta ainda mais, caso estas uvas tenham sido vinificadas com maior açúcar residual no mosto. Não faltam exemplos de vinhos de sobremesa destas varietais que somente ganham complexidade, se mostrando impecáveis após décadas em garrafas.

Se os vinhos brancos perdem na questão do tanino das uvas, pois não passam por maceração como no caso dos tintos, eles podem também obter taninos de outras fontes. Um exemplo é o uso de carvalho para sua elaboração ou envelhecimento. Através da longa permanência com a madeira, os vinhos brancos absorvem taninos do carvalho, o que ajuda na sua conservação.

Poucos vinhos evoluem bem

Os mesmos fatores atuam também nos vinhos tintos. A princípio, aqueles com uma maior combinação de taninos, acidez e açúcares tendem a durar mais. Não é toa que alguns vinhos fortificados como Porto e Madeira podem evoluir durante muitas décadas e mostram qualidade impecável, considerando seus melhores exemplares, mesmo depois de um século após sua safra.

Porém, é fundamental destacar que, mesmo apesar dos fatores acima, nem todos os vinhos foram feitos para envelhecer. Estima-se que menos de 10% dos vinhos elaborados atualmente tenham boa capacidade de evolução. E isso se deve a diversos fatores, desde a qualidade das uvas até os processos de vinificação adotados já que, muitas vezes, aditivos e processos (acidificação por exemplo) escondem os reais “fundamentos” do vinho.

Deste modo, vale a pena conhecer mais sobre o vinho antes de guardá-lo na sua adega pensando em consumo futuro. É fundamental entender como o vinho foi elaborado e conhecer as práticas do produtor, elas certamente farão toda a diferença. Mas uma coisa é certa: não há espaço para preconceito em relação ao tempo de permanência na adega. Existem brancos e mesmo rosés que podem durar muito tempo, basta ter o vinho certo em mãos.

Fonte: The Wine Bible, Karen MacNeil; Vinepair,

Imagem: Simone Lugli via Pixabay

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