Monopoles: conheça mais sobre estes vinhedos tão comuns na Borgonha

O idioma francês aportou uma inúmera quantidade de termos ao mundo do vinho. Isso reflete a longa e bem-sucedida tradição da vinicultura na França, que acabou se tornando referência para diversas práticas de produção e consumo de vinho ao redor do mundo. E um destes termos é monopole, utilizado com muita frequência na Borgonha.

Nesta região, é muito comum o mesmo vinhedo ser dividido por diversos produtores. E existem motivos históricos: a posse da terra foi fragmentada, sobretudo após a Revolução Francesa. Na época, o governo revolucionário confiscou os vinhedos de ordens religiosas e da nobreza, revendendo para particulares nos anos seguintes. E isso implicou que áreas anteriormente de posse de apenas um proprietário foram divididas em pequenas parcelas, muitas quais mantidas até hoje por famílias ou produtores da região.

Porém, nem todos os vinhedos foram divididos ou permaneceram fragmentados até hoje. Algumas famílias ou produtores mais tradicionais e/ou de maiores posses acabaram consolidando algumas áreas. Assim, existem vinhedos que atualmente tem sua área integral de posse de apenas um proprietário. Eles são chamados de monopole.    

Palavra com usos distintos

Embora tenha um sentido bastante específico quando falamos de vinhos, a expressão monopole tem outros significados distintos. Ela deriva de duas palavras gregas: monos, que significa único e poleo, que pode ser traduzida como vender, comerciar ou negociar. Assim, de forma geral (inclusive na sua versão em português – monopólio) se refere à venda de uma mercadoria por parte de um único fabricante ou vendedor.

No idioma francês, a palavra monopole tem o mesmo sentido, porém ganha um significado extra quando aplicada ao mundo do vinho. E o termo acabou se espalhando pelo mundo, embora seja ainda muito mais utilizado no que refere a vinhedos borgonheses. Isso ocorre principalmente porque a importância do vinhedo é mais óbvia na Borgonha. Ela serve, inclusive, como base para o sistema de hierarquização de áreas de produção de vinhos.

Monopoles famosos

É na França, mais especificamente na Borgonha, que se encontram alguns dos monopoles mais famosos do mundo. Sem dúvida, o mais conhecido é Romanée-Conti, que dá nome tanto a um vinhedo como a uma denominação de origem Grand Cru. Sua área, de 1,81 hectare, é de posse integral da Domaine de la Romanée-Conti. E este não é o único monopole Grand Cru de posse desta icônica vinícola, que também é proprietária única do vinhedo La Tâche.

Juntamente com estes dois monopoles, existem outros dois vinhedos Grand Cru de posse um único dono em Vosne-Romanée. São eles La Romanée (que tem a Domaine du Comte Liger-Belair como proprietário) e La Grande Rue, de posse da Domaine François Lamarche. Assim, dos oito climats Grand Cru deste vilarejo francês, quatro são monopoles.   

Mantendo foco somente em vinhedos Grand Cru, existem diversos outros exemplos na Borgonha. Sediado em Morey-Saint-Denis, o Clos de Tart é o único proprietário do vinhedo de mesmo nome, também uma denominação de origem Grand Cru. Existem outros exemplos de monopoles Grand Cru, embora nestes casos os proprietários sejam donos únicos de lieux-dits, mas não da denominação de origem completa.  São os casos de La Moutonne, de posse da Domaine Long Depaquit em Chablis, do Clos de Ruchottes (Domaine Armand Rousseau, em Gevrey-Chambertin, Corton Clos des Marechaudes (Albert Bichot) e Corton Clos des Cortons Faiveley (Faiveley), ambos em Aloxe-Corton.

Outros exemplos na Borgonha

Quando se fala em vinhedos Premier Cru, são diversos os exemplos de monopoles em diversos vilarejos da Borgonha. Na denominação de origem Volnay, são pelo menos treze monopoles: Fremiets Clos de la Rougeotte, Clos des Ducs, Clos de la Bousse d’Or, Clos des 60 Ouvrées, Clos de l’Audignac, Clos des Santenots, Clos de la Chapelle, Clos de la Barre, Clos de la Cave des Ducs, Clos de Château des Ducs, Clos du Verseuil, Volnay Les Grands Champs e Lassolle.

Alguns outros exemplos em outros vilarejos são Clos des Monts Luisants (Domaine Ponsot, em Morey-Saint-Denis), Clos de Porrets (Domaine Henri Gouges, em Nuits-St-Georges), Clos de la Marechále (Frederic Mugnier, também em Nuits-Saint-Georges), Clos Napoleon (Pierre Gelin, em Fixin), Le Clos Blanc de Vougeot (Domaine de la Vougeraie, em Vougeot) e Clos des Épeneaux (Comte Armand, em Pommard).

Porém, o título de maior monopole da Côte d’Or cabe a um vinhedo classificado como Village. Com mais de 17 hectares de extensão, Clos Marey-Monge é posse do Château de Pommard. O vinhedo é tão grande que o próprio produtor decidiu elaborar vinhos distintos a partir de diferentes parcelas, com seis cuvées distintas sendo lançadas todos os anos.

Uso fora da Borgonha

Embora existam inúmeros vinhedos de posse de um único proprietário, o termo monopole é raramente usado fora da Borgonha. A região de Bordeaux, por exemplo, conta com uma grande quantidade de vinícolas de posse de vinhedos inteiros, porém eles não são chamados de monopole. Neste caso, o próprio sistema de classificação é diferente, já que leva em conta o produtor, e não o vinhedo, como ocorre na Borgonha.

Fontes: Vins de Bourgogne; The Climats and Lieux-Dits of the Great Vineyards of Burgundy: An Atlas and History of Place Names, Marie-Hélène Landrieu-Lassigny e Sylvain Pitiot; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris

Imagem: Arquivo pessoal

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