Novas técnicas e um Indiana Jones diferente: como a ciência reconstituiu a história do vinho

O vinho tem uma longa história, com evidências de sua produção e consumo em boa parte das principais civilizações da Antiguidade. Por muito tempo, a reconstituição das fases iniciais desta trajetória foi baseada em relatos deixados por estas civilizações. Porém, este mapeamento do passado do vinho tem um limite: as primeiras evidências de escrita remontam a cerca de 3.500 antes de Cristo, quando os sumérios desenvolveram a escrita cuneiforme na Mesopotâmia.

Além disso, muitos destes relatos aparecem intrinsicamente ligados com fábulas ou mitologia. Segundo autores da Grécia Antiga, como Eurípedes, por exemplo, o vinho foi introduzido aos gregos por Dionísio, o deus do Vinho. Na obra “As Bacantes”, escrita no quinto século antes de Cristo, Eurípedes afirma que Dionísio, que seria filho de Zeus com uma mortal, seria originário da Frígia (que hoje corresponde à Turquia) e teria trazido as primeiras videiras para a Grécia.

Uma investigação mais séria das origens da vinicultura não pode se misturar com mitologia ou relatos vagos e imprecisos. Nas últimas décadas, todavia, isso mudou de forma radical. Diversas descobertas arqueológicas recentes e o uso de tecnologias mais avançadas estão ajudando a reescrever a história do vinho. Desta vez, porém, as fases iniciais da vinicultura estão sendo reconstruídas com bases científicas.

O Indiana Jones do vinho

Há um número enorme de arqueólogos e outros pesquisadores ajudando a descrever a trajetória do vinho, desta vez com base em observações científicas, E, dentro deste grupo, chama a atenção o trabalho incansável do arqueólogo norte-americano Patrick McGovern. Este professor da Universidade da Pensilvânia, que foi apelidado “Indiana Jones do vinho”, talvez seja a maior autoridade nas origens da vinicultura.

Ele é um dos pioneiros no campo emergente da arqueologia molecular, com foco principalmente em projetos no sudoeste da Ásia, local que atualmente é visto como o berço da vinicultura. Utilizando tecnologias modernas, que envolvem física, química e biologia, McGovern se tornou figura chave para desvendar os mistérios da origem do vinho. Uma amostra importante do seu trabalho é encontrada no livro Ancient Wine, ainda não lançado no Brasil.

Decifrando o passado

Mas como entender o passado sem a ajuda de relatos das civilizações antigas? Nas últimas décadas, diversas novas técnicas levaram ao crescimento da arqueologia molecular, uma linha de pesquisa que busca, basicamente, estudar moléculas produzidas por organismos antigos em evidências arqueológicas encontradas em instalações ou objetos da Antiguidade. Mas como isso funciona?

Um exemplo do trabalho de McGovern é a análise de ânforas e outros recipientes encontrados em sítios arqueológicos. O objetivo principal é identificar o que continham estes recipientes, o que ajuda a entender de uma forma muito mais clara a forma de viver destas civilizações antigas. Embora a imensa maioria do material orgânico já tenha sido perdido, evidências químicas importantes foram deixadas para trás. São elas que servem de base para reconstituir o passado.

Os rastros do vinho

Por exemplo, para identificar a presença ou não de derivados de uva em um recipiente do passado, uma substância é chave: ácido tartárico. No Oriente Médio e outras regiões do sudoeste da Ásia, a única fonte natural disponível desta substância é a uva. Assim, qualquer recipiente que apresente uma concentração importante de ácido tartárico deve ter, em algum momento, contido suco de uva, vinho ou vinagre.

Para definir se o líquido era vinho, uma nova evidência é necessária. No passado, se estendendo ao menos até a época do Império Romano, grande parte dos vinhos continha também resinas de árvores ou outras plantas. Estas substâncias eram usadas como conservantes, pois ajudam a proteger o vinho contra o ataque de bactérias e outros micro-organismos que contribuem para transformá-lo em vinagre.

Usando técnicas como cromatografia, os pesquisadores conseguem separar e identificar de forma individual componentes orgânicos. Assim, pode-se afirmar que um recipiente que contenha ácido tartárico e componentes presentes em resinas de algumas espécies vegetais tenha, com uma minúscula margem de erro, tenha sido usado para a elaboração ou armazenamento de vinho.

Aperfeiçoamento e novas técnicas

A quantidade de técnicas disponíveis não para de crescer. Um importante avanço veio também através da análise de DNA. Aliás, foi usando este tipo de procedimento, que pesquisadores conseguiram identificar as relações de “parentesco” entre diversas uvas. Foi a equipe do laboratório de estudos de DNA da Universidade da California em Davis que mostrou que a Cabernet Sauvignon é o resultado cruzamento entre Cabernet Franc e Sauvignon Blanc.

O uso destas técnicas (incluindo o estudo de microssatélites nucleares) já desvendou a relação entre diversas uvas e conseguiu também obter uma conclusão importante. O ancestral das uvas domesticadas europeias quase que certamente veio da região do sul do Cáucaso (atualmente Geórgia, Armênia e Azerbaijão) ou das montanhas Taurus, no sudeste da Turquia.

Certamente os próximos anos trarão novas surpresas e um avanço significativo nos estudos das origens do vinho. A combinação do uso de técnicas mais modernas em sítios arqueológicos já explorados e novas descobertas contribui para novas conclusões em relação aos caminhos que o vinho traçou desde 6.000 antes de Cristo até chegar à sua taça.

Fontes: Ancient Wine, Patrick McGovern, Biomolecular Definition, Encyclopedia of Global Archaeology

Imagem: Montagem usando imagens de Peggy und Marco Lachmann-Anke e de efes, ambos via Pixabay

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