Novos tempos: produtores da Borgonha se unem para ajudar abadia que moldou os vinhedos da região

A relação entre os principais vinhedos da Borgonha e as ordens religiosas (sobretudo os monastérios situados nesta região francesa) é conhecida. Foi em terras controladas durante séculos por monastérios que surgiram os principais climats da Borgonha. Por exemplo, o monastério de Bèze, situado ao norte de Dijon, recebeu as terras onde hoje se situa o vinhedo Grand Cru Clos de Bèze, em 630 depois de Cristo.

Todavia, a ordem monástica que marcou de forma mais intensa a história do vinho na Borgonha foi aquela criada por Robert de Molesme em 1098: os cistercienses. Estes dissidentes da ordem beneditina deixaram a Abadia de Cluny e seguiram para o norte, ao longo da Côte d’Or e, não muito distante de onde fica hoje Nuits-Saint-Georges, fundaram a Abadia de Cîteaux em 1098. Foram os monges de Cîteaux os responsáveis pela criação e desenvolvimento de diversos vinhedos na região, entre eles o famoso Clos de Vougeot, mencionado pela primeira vez em 1164.

Ascenção e queda

O domínio das ordens religiosas sobre alguns dos principais vinhedos da Borgonha durou séculos e teve fim somente a partir do confisco de suas terras após a Revolução Francesa de 1789. O resultado final foi a venda dos vinhedos para a burguesia local e o abandono e destruição dos principais monastérios, entre eles Cîteaux. Embora a parcela das instalações que resistiu à fúria revolucionária tenha sido devolvida à ordem religiosa em 1892, os dias de glória já faziam parte do passado.

Mesmo longe do esplendor pré-revolucionário, o que sobrou da abadia, porém, ainda representa um importante patrimônio histórico. Todavia, mesmo apesar da cobrança de ingressos para visita turística e recursos obtidos com a venda do famoso queijo da Abadia de Cîteaux, este patrimônio está em risco. Para realizar importantes obras de conservação, os poucos monges que ainda habitam a abadia anunciaram que necessitam de cerca de € 15 milhões. E lançaram um apelo.

Leilão de caridade

Se no passado os vinhedos eram a principal fonte de receita de Cîteaux, este parece ser um dos caminhos naturais para a obtenção de recursos para proteger este pedaço da história. Uma iniciativa lançada em conjunto com a casa de leilão Sotheby´s e com a participação de diversas vinícolas da região conseguiu obter € 850 mil para as reformas.

De um lado, foi lançada uma edição especial, pela primeira vez desde 1997, do Clos de Vougeot Grand Cru 2020, Cuvée de l’Abbaye de Cîteaux. Este vinho foi elaborado com doações de 24 das vinícolas que atualmente cultivam este vinhedo Grand Cru (são cerca de 80 diferentes proprietários atualmente). Diversos lotes com quantidades e formatos diferentes desta cuvée foram leiloados, com preços variando entre € 1.250 (lote de três garrafas de 750 ml) e € 17.500 (para uma garrafa Balthazar, de doze litros).

A maior contribuição individual do leilão, porém, foi uma garrafa de três litros (Jeroboam) do La Tâche 2009, oferecido pela Domaine de la Romanée-Conti e arrematada por € 100 mil. Curiosamente, este vinhedo, assim como outros em Vosne-Romanée, não era de propriedade dos monges de Cîteaux, mas sim de outra ordem religiosa, a Abadia de Saint-Vivant.

Um vinho muito raro

Outro destaque do leilão foi uma única garrafa de 750 ml de uma cuvée especial do Grand Cru Montrachet, que contou, na complicada safra de 2016, com as uvas de sete produtores diferentes. Esta garrafa foi adquirida por surpreendentes € 93,75 mil, sobretudo por conta de sua escassez. Este Montrachet 2016 tem uma história interessante. Os sete produtores em questão (Romanée-Conti, Comtes Lafon, Guy Amiot, Domaine Leflaive, Fleurot-Larose, Lamy-Pillot e Claudine Petitjean), assim como tantos outros, foram vítimas da forte geada de 27 de abril de 2016.

Este grupo, porém, decidiu vinificar as poucas uvas remanescentes deste vinhedo de forma conjunta. Foram apenas dois barris, com um total de 600 garrafas. Parte delas (500 garrafas), foi comercializada na época como L’Exceptionnelle Vendange des Sept Domaines. As demais 100 garrafas ficaram na posse dos sete produtores, para fazer parte de suas “bibliotecas” ou serem destinadas à venda de caridade. E esta garrafa foi uma delas, um exemplo de união e solidariedade.

Fontes: Sotheby´s; Inside Burgundy, Jasper Morris

Imagem: Abbaye de Cîteaux – Enluminure d’un manuscrit © Michel Joly

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