O que o Dia da Malbec tem em comum com o Dia dos Namorados no Brasil?

Não faltam datas comemorativas em nossos calendários. Celebrações como Natal, Dia das Mães e Dia dos Pais (as últimas duas, porém, sendo muito contestadas nos últimos anos) servem, acima de tudo, para unir as pessoas. Independentemente do cunho comercial associado a elas (Natal e Dia das Mães representam os maiores giros anuais no comércio), é sempre bom “reservar” uma data para passar mais tempo e desfrutar da companhia de nossa família e amigos.

Mas tudo tem limite. A criação indiscriminada de datas comemorativas motivadas puramente por interesses comerciais chega a ser irritante. E isso, obviamente, já chegou ao mundo do vinho. Promoções do Dia da Malbec, Dia da Tannat ou até mesmo Dia da Pinot Noir inundam nossas caixas de e-mail e mídias sociais todos os anos. E o objetivo é apenas um: vender mais.

Qual o limite do bom senso?

É difícil definir onde fica o limite entre uma celebração autêntica e uma puramente decorrente de interesses comerciais. Um bom exemplo é o Dia dos Namorados. Em grande parte do mundo ele é comemorado no dia de São Valentim, em 14 de fevereiro. A celebração deste santo ocorre no dia de sua morte. Sua associação com namorados é, porém, um tanto vaga.

Uma versão indica que o imperador romano Claudio, que reinou entre 41 e 54 depois de Cristo, teria proibido o casamento de soldados em período de guerras. Sua justificativa era que a união acabava reduzindo a capacidade de combate – os solteiros seriam melhores guerreiros. Porém, o bispo Valentim, que atuava em Roma, não teria respeitado as ordens do imperador e conduzido vários casamentos. O resultado foi o esperado: foi morto e virou santo.

O Dia dos Namorados

Porém, esta versão tem uma “pequena” inconsistência. O bispo Valentino teria vivido entre 226 e 269 depois de Cristo, portanto, mais que 200 anos depois do reino de Cláudio. Além disso, existiram outros “Valentins” que também se tornaram santos, o que ajuda a tornar o quebra-cabeças ainda mais complexo. De qualquer forma, o Papa Gelásio I instituiu em 496 que 14 de fevereiro seria o dia de São Valentim, data comemorada até a atualidade.

E qual a relação entre São Valentim e o atual Dia dos Namorados? Assim como São Nicolau ganhou a forma de Papai Noel, também a criação do Dia dos Namorados tem a ver com os Estados Unidos. Foi no século XIX, mais precisamente a partir de 1840, que o costume de comprar e enviar cartões à cara-metade, posteriormente aumentando de escala para a compra de presentes, surgiu. Daí em diante, ganhou o mundo e assumiu o formato que conhecemos hoje.

E no Brasil?

No Brasil, porém, a comemoração do Dia dos Namorados não ocorre em fevereiro, mas sim em 12 de junho, véspera da celebração do Dia de Santo Antônio, conhecido como santo casamenteiro. E não há como negar os interesses comerciais por trás disso. Para alavancar as vendas do comércio em junho (mês sem nenhuma celebração importante), o publicitário João Doria (pai do atual governador de São Paulo), decidiu inovar.

Trabalhando para uma rede de lojas no final da década de 1940, ele criou uma campanha publicitária com o slogan “não é só com beijos que se prova o amor”. O dia 12 de junho passou a ser usado, até porque Dia dos Namorados em fevereiro no Brasil é complicado, por conta do Carnaval. Embora muitos casais tenham se conhecido no Carnaval, esta data parece muito mais associada a traições e quebras de namoros do que propriamente à celebração de um relacionamento.   

Dia de uvas

As comemorações de dia de uvas parecem seguir o conceito tupiniquim do Dia dos Namorados, ou seja, uma proposta puramente comercial. Por exemplo, o Dia da Malbec teria sido criado em 2011 pela Wines of Argentina, responsável pela divulgação do vinho argentino ao redor do mundo. O dia 17 de abril foi escolhido com uma consideração histórica. Foi neste dia que, em 1853, o presidente argentino Domingo Faustino Sarmiento criou uma missão para transformar a indústria de vinho argentina, com a tarefa de importar mudas de uvas, entre elas a Malbec, para a Argentina.

O sucesso comercial desta estratégia comercial impulsionou a criação ou maior divulgação de outras inciativas semelhantes, como o Dia da Tannat (em 14 de abril) ou da Pinot Noir (em 18 de agosto). Todas elas dividem a mesma proposta: “lembrar” o consumidor e, se possível, convencê-lo de que existe um motivo para comprar mais vinhos destas variedades.

Interesses comerciais acima de tudo

O resultado? Práticas puramente comerciais, que, inclusive, nada têm a ver com as melhores condições de consumo destes vinhos. Por exemplo, a Tannat é conhecida por seus vinhos tânicos e densos, que harmonizam muito bem com carnes de caça e molhos intensos. Considerando a temperatura média em meados de fevereiro, talvez esta não seja a escolha gastronômica mais adequada.

Estes “dias de uva”, deste modo, são apenas mais uma estratégia intrusiva e profundamente irritante para os consumidores. Em nada geram valor e, na minha visão, servem apenas para desvalorizar o produto. Assim como não precisamos de um dia específico para tratar bem e presentear nossa cara metade, o mesmo vale para degustar e apreciar um bom vinho elaborado a partir destas uvas. Bom senso, por favor!

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

Fontes de dados: Wine Intelligence; OIV, OMS

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