O vinho e a mitologia: um barco pirata, golfinhos e a ira de um deus

O vinho é uma bebida ancestral, com pelo menos 8.000 anos de história. Ao menos é o que mostram as evidências encontradas na atual Georgia, que colocam a origem desta bebida nas montanhas do Cáucaso. De lá, o vinho teria gradualmente se espalhado, começando pela Ásia Menor e depois chegando à Europa.

E uma civilização antiga que conheceu o vinho de perto foi a Grécia. Porém, ainda não há uma definição exata de quando os gregos começaram a produzir vinho. Segundo a mitologia, teria sido Dionísio (chamado posteriormente de Baco pelos romanos) o introdutor do vinho entre os helênicos. Em sua obra As Bacantes, escrita no quinto século antes de Cristo, Eurípedes deixa isso claro. Dionísio seria filho de Zeus com a mortal Semele e originário da Frígia, que hoje corresponde à Turquia.

As primeiras menções históricas sobre a Frígia, que seria o local de origem de Dionísio e, portanto, do vinho na Grécia, são datadas de cerca de 800 a.C. O que Eurípedes não contava é que evidências arqueológicas encontradas em Creta, a maior ilha da Grécia, mostram que o vinho já era consumido e produzido lá muito antes, ao menos desde 1.500 antes de Cristo. Um ponto a menos para Dionísio, o que não impede, porém, que ele faça parte de fascinantes lendas envolvendo o vinho.

Dionísio e os piratas

Além de ser considerado o deus do vinho, Dionísio também era o deus do teatro e do êxtase, muitas vezes alcançado por conta do efeito inebriante do vinho. Segundo a lenda, ele adorava ludibriar os humanos, mas muitas vezes isso teve consequências sérias. Uma destas situações é descrita em um dos Hinos Homéricos, obras literárias criadas com a mesma métrica poética da Ilíada e da Odisseia.

Conta a lenda que Dionísio passeava à beira do mar, vestido elegantemente, como um príncipe. Esta figura chamou a atenção de piratas etruscos que estavam por perto e, prevendo receber um bom resgate pelo “nobre”, eles decidiram sequestrá-lo. Feito isso, decidiram amarrar a vítima no mastro do navio, até porque ele parecia um tanto alcoolizado. Enquanto os piratas riam e se divertiam com isso, um deles, o timoneiro do barco, notou algo estranho. Ele gritou aos companheiros que soltassem o cativo, pois ele poderia ser um deus, com poderes desconhecidos.

A videira e os golfinhos

Foi quando Dionísio voltou a si e decidiu agir para resolver a situação. Como os piratas não acreditavam que ele fosse um deus, Dionísio resolveu dar vida ao mastro de madeira do navio, transformando-o em uma imensa videira, que rapidamente começou a se encher de cachos de uvas. Ao perceber o erro, os piratas decidem recuar, mas já era tarde demais.

Dionísio se transfigurou em uma besta selvagem, possivelmente um leão, e atacou e matou o capitão. Os demais piratas pularam do barco para tentar fugir do predador. Dionísio, porém, não os perdoou. Com exceção do timoneiro, que não saltou no mar, todos os piratas foram transformados em golfinhos, o que explicaria, segundo a mitologia grega, porque estes animais sempre se aproximam dos navios.

Uma representação desta lenda

Esta lenda foi lindamente representada em um antigo recipiente usado para consumir vinhos, que os gregos chamavam de kylix. A chamada Taça de Dionísio é datada de cerca de 540-530 a.C. e foi feita pelo pintor mestre e oleiro Exekias. Esta obra de arte foi encontrada na primeira metade do século XIX pelo time liderado por Lucien Bonaparte, durante as escavações nas ruínas de Vulci, a cerca de 80 quilômetros de Roma. Adquirida por Ludwig I da Baviera em 1841, atualmente está em exposição no Staatliche Antikensammlungen de Munique.

Fontes: Ancient Wine, Patrick McGovern; Ancient Art Podcast

Imagem: Staatliche Antikensammlungen

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