Pontuação de vinhos: critério objetivo ou simplificação subjetiva e de pouca utilidade?

Vale a pena comprar vinhos de acordo com notas dadas por críticos e especialistas? Esta é uma pergunta que divide opiniões. Para muita gente, notas são uma forma simples e objetiva de qualificar um vinho. Basta conhecer a escala para saber se o vinho vale ou não à pena. Funciona um pouco como as notas que recebíamos nas nossas provas de escola. Afinal de contas, um aluno que tira nove é mais preparado que aquele que só conseguiu um seis e meio. Ou não? (esta afirmação contém ironia)

Por outro lado, um número crescente de profissionais e entusiastas do vinho, dentre os quais me incluo, enxerga as notas como uma simplificação perigosa e cada dia menos útil. Seria possível ter objetividade para chegar a um critério tão bem definido? Como entender a avaliação por trás do resultado? Qual o papel de interesses comerciais neste processo?

Ajuda é bem-vinda

O universo do vinho é quase infinito, com uma enorme variedade de regiões, uvas e produtores. Portanto, nada mais lógico do que contar com ajuda de profissionais experientes na hora de escolher um vinho. O número de possibilidades não para de crescer de forma quase exponencial, inclusive no Brasil, onde novas importadoras surgem continuamente e cumprem seu papel de trazer vinhos e produtores diferentes.

Se esta ajuda é mais do que bem-vinda, a questão é saber em qual forma. E as notas surgiram e se consolidaram como o modo mais simples e objetivo. Para que entender como o vinho é feito ou como produtor trabalha, se a nota pode resumir isso tudo em número. Um vinho de 95 pontos é melhor que um de 92, certo? Por que dificultar algo que pode ser simples?

A resposta é também simples: notas representam uma simplificação que, em minha opinião, mais atrapalha que ajuda. Felizmente, vinho é muito mais complexo e interessante do que algo que possa ser resumido a um número. Não faz parte de uma escala matemática, não é mensurável como temperatura ou velocidade. Há muito mais por trás a ser levado em consideração. Até porque o sistema de avaliação por notas se mostra extremamente frágil.

Objetividade versus subjetividade

Os defensores do uso indiscriminado da pontuação de vinhos apontam a objetividade e simplicidade como seus pontos altos. Não há dúvida que sua simplicidade e facilidade de entendimento sejam realmente admiráveis. Se você pergunta para alguém se está frio ou calor, a resposta pode ser objetiva ou subjetiva. Falar “está frio” é subjetivo, pois a percepção de temperatura varia muito entre as pessoas). Já citar que a temperatura atual é de 8 graus, por outro lado, deixa pouca margem de discussão.

No vinho, ao contrário do que alguns apregoam, não existe uma escala objetiva de avaliação. O que é bom para Robert Parker pode não ser bom para Jancis Robinson. Ao pontuar a safra 2003 do clássico bordalês Château Pavie, Parker deu 95 pontos, em uma escala de 100. Já Robinson cravou 12, em uma escala de 20. Embora tenham opiniões distintas, ambos são profundos conhecedores de vinho e este exemplo escancara o quanto critérios subjetivos são usados para dar nota a um vinho.

Vinhos e gostos mutantes

Mesmo se existisse total objetividade, como uma nota avalia um vinho ao longo do tempo? Será que se refere à condição atual do vinho ou ao que será no futuro? Como bem sabemos, o vinho muda profundamente ao longo do tempo. Um Barolo 2017 degustado hoje é completamente diferente deste vinho sendo degustado em 2032. Boa parte dos críticos considera que a avaliação vale para o futuro, mas será que, francamente, eles realmente têm a capacidade de prever como este vinho irá evoluir?

E não somente os vinhos mudam, mas também o palato das pessoas. Não é à toa que o mundo do vinho vive de fases. Se houve um período quando vinhos muito frutados, extraídos e de alta graduação alcóolica representavam o “padrão”, hoje em dia os vinhos mais bem avaliados se caracterizam por maior acidez, elegância e frescor. O mesmo crítico que deu 98 pontos em 2007 hoje possivelmente não pontuaria acima de 92.

Business rules

Um outro ponto importante é o peso cada dia maior de questões comerciais ligadas ao vinho. Se no passado os vinhos competiam entre si para ganhar a atenção de um relativamente pequeno grupo de avaliadores, hoje o quadro mudou. Por conta da democratização da informação, decorrente da internet, hoje existem milhares de avaliadores, todos competindo por espaço.

E como estes avaliadores ganham espaço para conquistar mais leitores e seguidores? Sendo mais incisivos para chamar a atenção, e isso passa por causar maior impacto com suas notas. Esta prática pode criar um círculo vicioso muito peculiar. Muitos produtores adoram usar notas para promover seus vinhos, inclusive colocando etiquetas com notas em suas garrafas. Entre uma nota 96 e um 90, obidas de dois críticos respeitados, possivelmente usarão a mais alta.

Assim, para um avaliador, dar uma nota mais alta pode ser mais interessante. Garante maior impacto e acesso a um público mais amplo, além de criar um relacionamento mais próximo do produtor. Se você acha que isso não existe, repare quantas notas baixas para vinhos são divulgadas. Quase nenhuma, já que uma avaliação negativa pode fechar as portas de um produtor para um crítico ou publicação.

Mais informações e julgamento próprio

Minha crítica ao sistema de pontos não se resume aos três pontos descritos acima. Existem diversos outros ângulos que devem ser analisados. Isso inclui o fato de que precisamos deixar de perder tanto tempo avaliando vinhos, pois muitas vezes nos esquecemos do principal, ou seja, apreciar este maravilhoso hábito cultural.

Já ouvi muita gente colocar que o sistema de notas seria um “mal necessário”, já que amplia o acesso ao público consumidor e é financeiramente interessante tanto para produtores como avaliadores. No caso do vinho, não temos necessidade disso, até porque, em minha visão, este sistema acaba levando a um comportamento mais passivo do consumidor.

O que o mundo do vinho (e antes fosse só ele) realmente precisa é de mais gente divulgando informação de qualidade. E, de preferência, sem os interesses comerciais dando as cartas. Como em qualquer área, deve haver incentivo à capacidade de julgamento de cada um. E isso ocorre através do fornecimento de informações claras, que permitam que o consumidor tome suas decisões. Mas tenho que admitir que isso parece uma meta distante no Brasil. Mesmo em coisas muito mais sérias e importantes, como a escolha de nossos líderes e exemplos, nosso histórico recente não é dos melhores.   

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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