Puligny-Montrachet: vinhos brancos de altíssima qualidade e algo mais

Puligny-Montrachet é um nome que desperta sensações de prazer e felicidade para quem aprecia vinhos brancos de grande expressão. Além de uma significativa quantidade de vinhedos Premier Cru de alta qualidade, este vilarejo na parte sul da Côte de Beaune também concentra quatro vinhedos Grand Cru (dois deles juntamente com Chassagne-Montrachet), algo raro na Borgonha.

Aliás, o vinhedo de Montrachet, considerado o melhor climat para vinhos brancos do mundo para muita gente, faz parte do nome do vilarejo, após sua adição ao nome original, Puligny, em 1878. Esta área de terroir diferenciado para vinhos brancos acabou se tornando a origem de alguns dos Chardonnays mais disputados do mundo. Mas nem sempre foi assim.

O vilarejo visto a partir do Premier Cru Les Combettes

Uma longa história

O vilarejo teve origem na época galo-romana, quando era chamada de Puliniacus e, possivelmente, já tinha áreas dedicadas à viticultura desde os tempos do Império Romano. Em 1094 a igreja e os vinhedos de Puligny foram doados para a abadia de Cluny, mas o impacto mais significativo da ação dos monges cistercienses veio a partir da fundação da abadia de Maizières, em 1102. No início do século XIII os religiosos já cultivavam estas terras e, em 1252, a abadia recebeu as primeiras doações de vinhedos em Montrachaz.

Os vinhos da região (possivelmente mais tintos que brancos) já gozavam de alto prestígio na Idade Média. Esta reputação seguiu nos séculos seguintes, inclusive com Thomas Jefferson, futuro presidente dos Estados Unidos, colocando os vinhos ao nível daqueles em Chambertin em 1787. A parte de Puligny do vinhedo Montrachet recebeu a classificação máxima de Jacques Lavalle em 1855. Em 1937 foram criadas as denominações de origem, colocando, de um lado, os vinhedos não Grand Cru e, de outro, cada Grand Cru individualmente.                  

Os vinhedos Grand Cru

Por conta da classificação de vinhos adotada na França em meados da década de 1930, em 1937 foram criadas quatro denominações de origem Grand Cru com vinhedos situados total ou parcialmente em Puligny-Montrachet. O principal destaque ficou com o climat Montrachet, que possui cerca de 8 hectares de área, dos quais 4,01 ha em Puligny-Montrachet.

Outro vinhedo que ganhou uma denominação própria e é dividido entre Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet é Bâtard-Montrachet. Já Chevalier-Montrachet e Bienvenues-Bâtard-Montrachet, também Grand Cru, estão inteiramente localizadas dentro da área da commune de Puligny-Montrachet      

A denominação Puligny-Montrachet

Embora não inclua os vinhedos Grand Cru, a denominação de origem Puligny-Montrachet conta com 17 vinhedos classificados como Premier Cru, que correspondem a aproximadamente 47% da área total demarcada, de 213,34 hectares (sem contar os cerca de 21 hectares de vinhedos Grand Cru). Da área total atualmente em produção, 99,5% são plantados com Chardonnay, o restante com Pinot Noir.

A produção média entre 2014 e 2018 foi de 10.676 hectolitros, que correspondeu a cerca de 4,5% do total da Côte de Beaune no mesmo período. Desta produção, aproximadamente 44,3% foram classificados como Premier Cru. A produção média de vinhos brancos no mesmo período foi de 10.655 hectolitros, o que corresponde a cerca de 1,4 milhão de garrafas, em comparação com menos de 3 mil de vinhos tintos.

Geologia

Existe um motivo determinante por trás da qualidade dos vinhos brancos de Puligny-Montrachet: sua geologia. Boa parte da colina de Montrachet é composta por uma falha geológica, que permite que esta parte da Côte d’Or tenha algumas das melhores características dos solos da Côte de Beaune, e outras da Côte de Nuits. Esta falha vai desde a área dos Grands Crus, estendendo-se também para o sul, em direção a Santenay. Segue também para norte, porém já na parte mais alta das encostas, fora da área plantada com videiras.

Toda a parte média e superior da encosta, por conta disso, tem uma composição elevada de calcário, que aumenta conforme a altitude.  Aliás, esta característica influenciou inclusive na forma como a encosta foi chamada. Em função de uma camada de calcário comblanchiano duro e de baixíssima fertilidade, o alto da colina apresenta pouca vegetação. A palavra do francês arcaico rache, parece ser resultado do aspecto “caloso” da colina.

Outro aspecto peculiar da geologia local de Puligny-Montrachet é o fato de o lençol freático ser bastante elevado. De um lado, isso dificulta a construção de adegas subterrâneas no vilarejo, o que, historicamente pode ter influenciado o estilo de seus vinhos, em geral com menos tempo de passagem por carvalho do que na “vizinha” Meursault. Por outro, afeta a qualidade dos vinhos provenientes da parte mais baixa do vilarejo, que se mostram menos concentrados, porém com videiras mais resistentes a períodos de secas.

Principais vinhedos

Os vinhedos de Puligny-Montrachet podem ser divididos em três áreas distintas. A mais conhecida é a faixa central da colina, que inclui todos os vinhedos Grand Cru e Premier Cru (em cor de vinho e laranja no mapa abaixo, respectivamente). Já a parte mais plana, que inclui os terrenos abaixo desta faixa, é dominada por vinhedos Village. Por fim, existe a área ao redor da aldeia de Blagny, cuja área urbana fica dentro da commune de Puligny-Montrachet.

Mesmo excluindo os climats Grands Crus, que têm denominações de origem distintas, não faltam vinhedos de altíssima qualidade na denominação de origem Puligny-Montrachet. Dentre eles, talvez o mais respeitado seja o Premier Cru Le Cailleret, que fica imediatamente ao norte do Grand Cru Montrachet e dá origem a vinhos de muita tensão e mineralidade.

Outro vinhedo de renome é o também Premier Cru Les Pucelles, para muitos o maior exemplo de tipicidade de Puligny-Montrachet. Outros Premier Cru recomendados são Les Folatières (o maior desta classificação), Les Combettes e Les Demoiselles. Dentre os classificados como Village, o destaque fica com En La Richard, apesar de sua minúscula produção, seguido por Les Charmes e Les Enseignères.

Estilos de vinhos

Entre os vinhos brancos, certamente o destaque fica com os Grands Crus, sobretudo Montrachet e Chevalier-Montrachet. São vinhos de incrível complexidade e elegância, com mais potência e profundidade no caso do primeiro e mais frescor, tensão e mineralidade no segundo. Já o estilo que predomina nos Premiers Crus é de vinhos de muita precisão e personalidade, com aromas florais, de frutas brancas e notas de brioche.

Embora de pequena produção, os tintos têm um estilo próprio, mais leves e elegantes que aqueles de Chassagne-Montrachet. Um exemplo é o Pinot Noir elaborado pela Domaine Jean Chartron, a partir de suas videiras no Premier Cru Clos du Cailleret.

Produtores em evidência                                        

Apesar da proximidade com vinhedos tão especiais, Puligny-Montrachet é um vilarejo com menor quantidade de produtores que seus dois principais vizinhos (Meursault e Chassagne-Montrachet). Isso não impede, porém, que seja sede de um dos produtores mais emblemáticos de vinhos brancos da Borgonha, a Domaine Leflaive. Com atividades no vilarejo desde 1717, os Leflaive atualmente possuem parcelas em praticamente todos os Grands Crus e Premiers Crus de destaque na região.

Outras vinícolas sediadas em Puligny-Montrachet que chamam a atenção são Domaine Jacques Carillon, Domaine François Carillon, Domaine Jean Chartron, Domaine Etienne Sauzet e Domaine Benoit Ente. 

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; Burgundy Report

Mapa: Vins de Bourgogne

Imagens: Arquivo pessoal

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