Raridade e especulação: preços de muitos vinhos seguem subindo de forma descontrolada

Beber uma garrafa de um grande vinho é sempre um evento especial. Porém, dependendo do que chamamos de “grande vinho” este prazer está cada dia mais restrito. Nas últimas décadas houve uma verdadeira explosão nos preços dos vinhos mais raros do mundo, uma consequência direta do que os economistas rotulam de “lei da oferta e demanda”.

Mesmo quem não estudou economia sabe como esta lei funciona. Qualquer produto ou serviço que registre uma procura maior do que é oferecido para venda tende a ver seus preços subirem. E esta situação é ainda mais crítica para aqueles bens onde existe uma limitação de produção. Exemplos não faltam: quadros de grandes artistas já falecidos, apartamentos de frente para o mar no Leblon ou hectares de vinhedos Grand Cru na Borgonha.

Como a quantidade disponível não aumenta, a única forma do mercado se acomodar ao maior interesse dos compradores é através do aumento de preços. No caso do vinho, embora sejam elaboradas novas safras todos os anos, a quantidade pode ser insuficiente para fazer frente ao aumento na procura. O resultado é que os preços seguem em alta, muitas vezes fugindo totalmente do razoável.

O preço de um Romanée-Conti

Um exemplo típico deste movimento ocorre com os vinhos da Domaine de la Romanée-Conti (DRC), possivelmente a vinícola mais admirada do mundo. Além de seu vinho mais conhecido, que leva o nome do seu vinhedo mais famoso (o monopole Grand Cru Romanée-Conti), a vinícola produz atualmente outros 12 vinhos distintos. Alguns não disponibilizados comercialmente, mas cada um vem de um vinhedo diferente.

Por muito tempo a vinícola optou por disponibilizar seu vinho mais badalado somente em um lote fechado, chamado de assortiment. Ou seja, para comprar uma garrafa de Romanée-Conti, é necessário adquirir uma caixa de doze vinhos, com alguns exemplares de outras cuvées disponíveis comercialmente. No início da década de 1990, esta caixa de doze vinhos podia ser comprada por cerca de US$ 5.000. Atualmente, uma única garrafa de Romanée-Conti é vendida em lojas online na faixa de US$ 20.000.

Oferta e demanda

O caso do Romanée-Conti evidencia claramente o que acontece com o preço quando a oferta é limitada e a demanda não para de crescer. Com apenas 1,8 hectare de vinhedo disponível, somente são produzidas, na média, cerca de 5.000 garrafas de Romanée-Conti ao ano, uma oferta bastante restrita. E quanto à demanda?

Considerando dados recentes, o mundo teria um total de cerca de 3.000 bilionários, ou seja, pessoas com patrimônio superior a US$ 1 bilhão (cerca de R$ 4,75 bilhões). Se considerarmos o número de indivíduos com patrimônio financeiro (sem incluir casa própria) superior a US$ 30 milhões, o número explode para mais de 250.000. Ou seja, considerando que o vinho se tornou para muita gente um item que representa status e riqueza, não é fácil entender por que os preços subiram tanto.

Distorções de mercado

Além disso, existe ainda uma clara distorção no mercado secundário de vinhos, sobretudo aquele disponível na internet. Para muitos vinhos, como o Romanée-Conti, ele é ainda a opção mais provável para encontrar o vinho. A vinícola em si já tem suas alocações definidas por vários anos, você não pode simplesmente chegar lá e pedir uma caixa, a resposta será um óbvio não. A alternativa para comprar este vinho, além de ter muito dinheiro, seria ter um bom relacionamento com um dos importadores autorizados.

Por conta da dificuldade em comprar o vinho diretamente, os preços no mercado secundário refletem um claro padrão especulativo. Por incrível que pareça, a forma mais “barata” de beber uma garrafa de Romanée-Conti é pedi-lo em algum restaurante tradicional, sobretudo na França, que tenha uma alocação direta junto à vinícola. Mesmo considerando a margem do restaurante, já vi exemplares de safras consideradas como medianas na faixa de US$ 4.000 por garrafa.

Escassez generalizada

Porém, não são somente os vinhos da Domaine de la Romanée-Conti que sofrem uma imensa valorização por conta de sua escassez. Algumas das cuvées da Domaine Leroy, também da Borgonha, são vendidas a preços até mais elevados que as da DRC, por conta de sua escassez. Em alguns casos, em função da pequena área de vinhedos, a produção de algumas cuvées não ultrapassa 500 garrafas ao ano.

Mas você acha que este movimento especulativo atinge somente as garrafas que custam milhares de dólares? Não, ele é generalizado. Mesmo analisando o mercado de vinhos de baixa intervenção (que muitos gostam de chamar de vinhos naturais) o fenômeno se repete. Vinhos raros, automaticamente, se tornam vinhos caros.

Um exemplo fica com os vinhos de Emmanuel Houillon e Pierre Overnoy, baseados em Pupillin, no Jura. Se você procurar na internet, pode achar seus vinhos na faixa de € 500 (mais de R$ 2.500 por garrafa). Porém, este preço está muito longe do que a vinícola cobra. Embora raros (a produção total da vinícola é de cerca de 20 mil garrafas ao ano), eles podem ser consumidos em alguns restaurantes a um preço abaixo de € 100 por garrafa de safras mais recentes.

Difícil solução

E esta situação só parece piorar. Por terem oferta muito limitada, estes vinhos acabam entrando em uma espiral de preços, já que cada dia atraem mais potenciais consumidores e vêm seus preços subirem. A praticidade do comércio online somente fez este fenômeno se tornar ainda mais intenso. E isso faz tanto os produtores, como lojas ou restaurantes que possuem alocações, serem mais seletivos.

Na França, algumas lojas já criaram “clubes exclusivos”, onde, ao pagar uma taxa fixa mensal, você ganha acesso à compra dos vinhos (geralmente limitada a uma garrafa por pessoa) dos produtores mais disputados. No caso de restaurantes, você não pode comprar e levar os vinhos para casa, o consumo deve ser local. Outra opção usada por estes estabelecimentos é a criação de uma carta de vinhos “paralela”, disponível apenas para seus clientes mais fiéis.

Vinho como ativo financeiro

Em poucas palavras, cada dia mais estes vinhos ganham um status diferente, quase similar a um ativo financeiro. Algumas vezes, porém, sorte é necessária. Visitando uma loja em Paris, me chamou a atenção uma única garrafa disponível de uma safra mais antiga de um produtor de pequeno porte do Loire. Rapidamente peguei a garrafa (até por ser de uma safra que me agrada) e, ao passar no caixa, entendi o ocorrido.

A loja estava arrumando sua adega e achou uma garrafa “perdida”. Mas me chamou a atenção o pedido do vendedor: por favor, aproveite este vinho e não o comercialize pela internet. Ao chegar em casa entendi o porquê: se quisesse comprar o mesmo vinho online, teria que desembolsar cinco vezes o valor que paguei. Algo completamente insano e que reflete a especulação que tomou conta do mundo dos vinhos raros.      

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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