Terroir: você conhece este conceito e como ele define o vinho que você aprecia?

Quem aprecia beber um bom vinho e mostra curiosidade e disposição para se informar melhor sobre o fascinante mundo desta bebida milenar certamente já se deparou com um termo: terroir. Originária do francês, esta expressão não tem uma tradução precisa em outros idiomas e pode ser vagamente definida como uma espécie de senso de territorialidade. É algo que se relaciona com as condições e práticas de um local.

Mas o que seriam estas condições e práticas? Antes de uma descrição mais detalhada, vale a pena conhecer a definição cunhada pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho). Em seu congresso mundial de 2010, o terroir do vinho foi definido como “um conceito que remete a um espaço no qual se desenvolve um conhecimento coletivo das interações entre um ambiente físico e biológico identificável e as práticas vitivinícolas aplicadas, que conferem características distintas sobre os produtos originários deste espaço. Terroir inclui características específicas do solo, topografia, clima, paisagem e biodiversidade”.

Definindo terroir: a natureza

Embora traga alguns conceitos importantes, esta definição merece ser detalhada. E vamos começar pela parte que se refere a “ambiente físico e biológico identificável”. Neste sentido, terroir inclui praticamente todas as características que afetam um vinhedo. E elas podem ser divididos em duas partes: físicos e biológicos. Um exemplo de característica física é a composição do solo. Ele irá ajudar a definir, em conjunto com outros fatores, a drenagem e quantidade e distribuição de água disponível para a videira ao longo do ano.

Diversos outros fatores físicos afetam as videiras. Entre eles, destaque para altitude, latitude, orientação e declive do vinhedo, regime de chuvas, horas de sol e sua distribuição, temperatura média e amplitude térmica, além da umidade relativa. Já entre os fatores biológicos estão o perfil de outras plantas e microbioma da região, com maior peso para aqueles presentes nos vinhedos.

Porém, mais importante do que cada fator em si, o que melhor define o terroir é a interação entre estas diversas características. Elas acabam ressaltando a unicidade de cada local. Seriam, portanto, características únicas e não reproduzíveis em outras áreas.

Definindo terroir: a intervenção humana

Porém, o conceito de terroir não se restringe somente ao que a natureza traz. Também a forma de intervenção humana, que é chamada de características culturais, pode ser decisiva para o conjunto de características que compõem o terroir. Por exemplo, o sistema de condução escolhido para o vinhedo pode afetar de forma significativa como o sol atua sobre os cachos de uva. E isso está longe de ser a única variável controlada pela ação humana.

Terroir também inclui diversas influências humanas, entre elas: quais são as variedades ou clones escolhidos, como as videiras são podadas, se são ou não irrigadas, qual o nível de cobertura vegetal mantido entre as videiras, qual o tipo e qual a intensidade no uso de fertilizantes ou produtos de controle de pestes. Da mesma forma que no caso dos fatores naturais, também a forma na qual ocorre a intervenção humana, além de sua interação, são fundamentais.

Mas, dentro do conceito de terroir, a ação humana não fica somente no vinhedo, mas também na vinificação. Embora não exista consenso sobre o quanto estes fatores possam ser incluídos dentro da definição de terroir, é inegável que sejam muito importantes. Por exemplo, quais são as leveduras usadas para a fermentação, são indígenas? Quais os processos utilizados? Quais insumos são usados e quais podem mascarar ou alterar características do vinho?   

Discussões sobre seu uso

Mais do que a discussão sobre os fatores que influenciam o terroir, há quem discuta o seu próprio conceito. Há visões radicais que colocam que terroir é uma fantasia. Teria sido inventada pelos produtores de vinho franceses para reforçar suas alegações de que seus vinhos são únicos. Por exemplo, dizer que Borgonhas tintos não devem ser comparados com Pinot Noir produzidos em outros lugares, porque o terroir da Borgonha é único e nunca pode ser copiado, seria uma heresia.

No entanto, cada dia mais a visão de que terroir não somente existe, mas também é fundamental, é mais aceita universalmente. Curiosamente, um dos principais e mais completos estudos comprovando sua existência foi elaborado por pesquisadores argentinos, usando diferentes parcelas de Malbec plantadas de seu país como objeto de estudo.

O fato do terroir existir, porém, não significa que possa ser usado livremente, somente como parte de estratégias comerciais. Há um uso excessivo do termo e seu uso incorreto pode ter levado, inclusive, a uma ambiguidade quanto ao seu significado, sobretudo quando colocado no contexto das denominações de origem. Vale lembrar que terroir talvez tenha sido o principal argumento para delimitar determinadas áreas e dar-lhes o arcabouço legal da denominação de origem e dar proteção aos vinhos nelas produzidos.

Fontes: The Myths of Terroir, Kevin Pogue; Terroaristas; The Real View; Winegourd

Imagem: adege via Pixabay

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