Um Presidente que amava e conhecia vinhos: conheça quem antecipou a classificação de Bordeaux

Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos, tem sido alvo de muitas polêmicas. A decisão do Conselho Municipal de Nova York, que divide a administração da Big Apple com o prefeito, de remover sua estátua do prédio da prefeitura da maior cidade norte-americana, é apenas mais uma delas. Esta decisão, tomada em outubro de 2021, teve como justificativa o fato de que Jefferson ter possuído mais de 600 escravos.

Porém, existe um aspecto da vida de Jefferson que parece ser uma unanimidade: sua paixão pelo vinho. Mesmo antes da independência dos Estados Unidos, o futuro presidente já era consumidor e apreciador de vinhos, sobretudo os fortificados, como Porto ou Madeira. Mas esta paixão atingiu novos patamares após Jefferson ter vivido na Europa, em funções diplomáticas logo após a independência.

Mudança de paladar

A França foi possivelmente o maior apoiador da independência dos Estados Unidos e, consequentemente, a posição de embaixador no país europeu representava um cargo de grande importância. Tanto que o primeiro representante foi Benjamin Franklin, que ocupou o cargo até 1785, quando Thomas Jefferson assumiu a posição. E foi neste período, que se estendeu até 1789, que Jefferson aprofundou sua paixão pelo vinho.

Porém, ao invés de manter os hábitos e gostos adquiridos no tempo quando os britânicos davam as cartas na América do Norte, o então embaixador passou por uma transformação. Como ele mencionou em 1817, “O gosto deste país [foi] artificialmente criado pela nossa longa submissão ao governo inglês, para os fortes vinhos de Portugal e Espanha”. Assim, a revolução em seu próprio gosto pelo vinho teria seguido a quebra dos laços com o governo colonial britânico. Ele passou a beber e servir os vinhos mais leves da França e da Itália, e esperava que seus compatriotas seguissem seu exemplo.

Mount Rushmore: Jefferson é o segundo, da esquerda para a direita

Viagens e descobertas

Em seus cinco anos na França, Jefferson descobriu um novo mundo no que dizia respeito ao vinho. Baseado em Paris, visitou as principais regiões produtoras da França, como Bordeaux, Vale do Loire, Borgonha e a região do Rhône. Viajou também a outros países e regiões, desenvolvendo gosto por vinhos não franceses, como os alemães e os do Piemonte, onde também realizou uma visita.

Embora o período de sua estadia na França tenha sido bastante turbulento (ele estava em Paris quando da queda da Bastilha em 1789, um dos eventos mais simbólicos da Revolução Francesa), uma viagem em particular mudou sua percepção sobre o vinho. Foi em sua ida à Bordeaux em 1787 que Jefferson deixou claro a sua paixão pelo mundo do vinho.

Classificando vinhos

Na época, os vinhos da região de Bordeaux ainda não tinham uma classificação formal de qualidade ou hierarquia, o que só viria a acontecer em 1855, quando da Exposição Universal de Paris. Após degustar os vinhos e conhecer os principais vinhedos e propriedades da região, Jefferson decidiu criar uma espécie de classificação própria, indicando quais seriam seus vinhos favoritos. Por conta disso, o na época embaixador teria sido o primeiro a classificar os vinhos do Médoc como um todo.

Ele teria sugerido segmentar os vinhos da região em três níveis de classificação (a classificação de 1855 criou cinco categorias). Mas teria sido no nível superior, que hoje corresponderia ao Premières Crus Classés, que ele dedicou maior atenção.

Talentos de degustador

Para Jefferson, existiam quatro vinhedos de qualidade privilegiada, que seriam assim descritos em suas próprias palavras:

1. “Château Margaux, pertencente ao Marquês de Argicourt, produz cerca de 150 barris que foram vendidos por contrato a um comerciante chamado Jernon”.

2. “La Tour Segur, (Château Latour) em Saint-Lambert, pertencente ao Mister de Miromesnil, que produz 125 barris”.

3. “Haut-Brion, dois terços dos quais pertencem ao Conde de Fumel que vendeu a colheita a um comerciante chamado Barton. O outro terço pertence ao Conde de Toulouse; ao todo, o château produz 75 barris”.

4. Château de la Fite, (atualmente Château Lafite Rothschild) pertencente ao Presidente Pichard de Bordeaux, que produz 175 barris”.

Coincidentemente ou não, foram estes quatro vinhos os escolhidos para compor o grupo de elite da classificação de Bordeaux de 1855. Não há dúvida de que a escolha de 1855 tenha sido baseada na reputação passada e nos preços dos vinhos destes produtores, mas não há como negar que Thomas Jefferson sabia do que estava falando quando o assunto era vinho.

Para conhecer um pouco mais sobre sua relação com vinho, vale a pena assistir ao vídeo abaixo.

Fontes: The Wine Cellar Insider; Monticello.org; The New York Times

Imagem: Guy Johnson via Pixabay

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