Uma furtiva lágrima: vinho e emoção nas mãos de um gênio da Borgonha

Vinho e emoção andam de mãos dadas. Quantos dos grandes momentos de nossas vidas não foram celebrados ou brindados com uma taça de vinho em nossas mãos? Vinhos estão presentes em nascimentos, casamentos, aniversários e todo tipo de celebração. E, muitas vezes, o próprio vinho pode ser a fonte destas emoções, principalmente quando falamos daqueles que nos tocam a alma.

No início deste ano, agendei uma visita em uma vinícola que sempre quis conhecer pessoalmente. Chegando alguns minutos antes do horário marcado, conheci o pequeno grupo de três pessoas que dividiriam a visita comigo, dentre elas uma sommelière coreana. Se eu já estava ansioso, imagine ela, que timidamente confessou que este era o seu produtor favorito. Não somente na região ou na Borgonha, mas em todo o mundo.

Pontualmente no horário previsto, fomos recebidos pelo seu proprietário e enólogo. Apesar de ser um dos melhores produtores da Borgonha, esbanjou simplicidade, generosidade e simpatia, nos dando o prazer de conhecer sua linha completa de vinhos, todos da última safra disponível, 2020.

Uma degustação inesquecível

Se as diferenças de idioma no grupo eram significativas e o produtor nos recebeu em francês (um cavalheiro que se desculpou por não falar inglês – mesmo em seu próprio país), as sensações após cada vinho não precisavam de tradução. Começando com seus vinhos mais simples e passando para seus Premier Cru e Grand Cru, a felicidade estava estampada no rosto dos presentes. Todos os vinhos provados foram elaborados a partir da mesma uva e na mesma safra, mas cada um deles mostrou expressões distintas, um exemplo poderoso do que significa terroir na Borgonha.

Terminada a sequência de vinhos, parecia ter chegado a hora de deixar a adega escura e fria e voltar a sentir o agradável sol do começo da primavera europeia. Mas uma pergunta acabou mudando a dinâmica de nossa visita. Mencionei ao produtor que recentemente me surpreendi com um texto que li, o qual afirmava que o vinho mais básico desta denominação de origem não teria grande capacidade de evolução. Ele esboçou um sorriso no rosto e nos pediu para aguardar um momento, caminhando para uma parte ainda mais escura da cantina.

Ansiedade e emoção

Depois de cerca de um minuto, voltou com uma garrafa. Pelo rótulo, totalmente esfacelado e ilegível, vimos que era um vinho antigo. Cuidadosamente, ele abriu a garrafa, provou seu vinho e o serviu aos quatro presentes. O olfativo mostrava que o tempo havia deixado sua marca e nós quatro tentamos trocar nossa primeira impressão, sem nada dizer. Ansiosos, tentávamos já decifrar o que viria na boca.

Rapidamente tivemos a resposta. O vinho era repleto de vivacidade, profundo e magicamente equilibrado. Confirmei que devemos sempre contestar tudo o que lemos, ainda mais em uma região onde as exceções parecem quase sempre superar as regras, como a Borgonha. Quem escreveu que este tipo de vinho não envelhece bem precisa abrir seus horizontes e rever seus conceitos.

Mas a reação da sommeliére coreana me chamou a atenção. Ela estava imóvel, olhando para outro lado da cantina. Quando ela se virou em nossa direção, entendi o motivo. Ela estava contendo a emoção, os olhos marejados, era alguém que degustou mais que um vinho. Havia um sentimento profundo envolvido. Mas ela não resistiu e uma gota correu, saindo de seu olho direito. Uma furtiva lágrima.

O elixir do amor

Cerca de 190 anos antes, em maio de 1832, estreava no Teatro della Canobbiana, em Milão, a obra que consagrou Gaetano Donizetti. Sua opera L´Elisir d’Amore, curiosamente, traz uma menção ao vinho. Nela, o camponês Nemorino, buscando conquistar o coração da bela fazendeira Adina, tenta uma cartada decisiva. Questiona o Dr. Dulcamara, um charlatão itinerante que se passa por médico, se ele não conhece uma poção que possa capturar a atenção de Adina.

Dulcamara, obviamente, tem a solução: um elixir (na verdade um vinho barato) que seduziria a sua amada. Nemorino gasta até seu último centavo comprando o elixir. Após descobrir que somente o amor verdadeiro causaria tal loucura por parte de Nemorino, Adina prova a poção. Ela descobre que também sempre amou o camponês e a ópera termina com um final feliz. Antes disso, porém, este amor foi embalado pela genialidade de Donizetti, na forma da espetacular ária Una Furtiva Lagrima.

Um brinde à vida

Tremendamente embaraçada por mostrar seus sentimentos de forma tão transparente, a coreana se desculpa, mas rapidamente percebe que não foi a única pessoa tocada pela mágica do vinho. O clima é de surpresa e alegria, inclusive do produtor. Rapidamente um brinde é levantado à generosidade e amizade. As lágrimas são de contentamento.

Este elixir não tem nada de charlatanismo. Ele embeleza a vida e traz felicidade e prazer. Ainda mais quando seu produtor se chama Vincent Dauvissat, um dos grandes nomes do vinho da Borgonha e que divide (embora seja também meu produtor favorito na região), o trono de melhor vinhateiro de Chablis.

Seus vinhos impressionam pela precisão e pureza, começando pela sua cuvée mais simples, um modesto Petit Chablis. Mas que, nas mãos de um mestre da arte de fazer vinhos, se torna um elixir hipnotizante. Até porque não é todos os dias que tenho o privilégio de ser servido pelo próprio produtor com uma garrafa da segunda safra que ele elaborou desta cuvée. Um Petit Chablis 1996 mais que inesquecível. Bravo!

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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