Vinhos de micro-négociants: uma tendência que veio para ficar

Os preços de vinhedos não param de subir ao redor do mundo. Se no passado era factível um vinhateiro começar sua própria vinícola através da aquisição de alguns hectares de vinhedos, isso está se tornando cada vez mais difícil. Em algumas regiões, como a Borgonha, o preço do hectare em áreas mais nobres já rompeu a barreira de dezenas de milhões de euros. E isso pode beirar a insanidade: um hectare em Musigny, um dos principais climats da Côte d’Or, é atualmente cotado na faixa de € 75 milhões (cerca de R$ 450 milhões).

Por conta disso, muitos vinhateiros decidiram elaborar vinhos, usando sua marca, mas a partir de uvas compradas de terceiros. Em geral, são responsáveis pela vinificação e comercialização. Mas não são poucos aqueles que também ajudam e dão as cartas também na viticultura, sempre com o objetivo de produzir vinhos melhores. Esta forma de elaborar vinhos se tornou bastante comum ao redor do mundo, e quem a adotou ganhou um nome: micro-négociant.

Uma reinvenção de conceito

O conceito de micro-négociant, porém, está longe de ser uma invenção moderna. A figura do négociant já existe em diversas regiões vinícolas (como Bordeaux e Borgonha, por exemplo) há séculos, mas o que mudou foi a escala. A Borgonha é um caso que vale a pena ser estudado, por muitos séculos os négociants foram o principal motor da vinicultura local. Sem ter a posse dos vinhedos, compravam uvas ou vinhos prontos e faziam o blend, envelhecimento e comercialização, usando suas marcas.

Até o início da década de 1970, nomes como Bouchard Père et Fils, Faiveley, Louis Jadot e Joseph Drouhin, trabalhando em grande escala, dominaram a produção e comércio de vinhos na Borgonha. Gradualmente, porém, em um processo que ganhou mais intensidade a partir da década de 1930, os produtores locais decidiram fazer e comercializar seus próprios vinhos, dando origem às principais vinícolas que hoje representam a região. O resultado é que os négociants, embora ainda atuem no modelo anterior, decidiram rapidamente expandir suas áreas de vinhedos.

No caso da Borgonha, em particular, além dos négociants, outros compradores surgiram. Bilionários, fundos de investimento, investidores estrangeiros e mesmo vinícolas em expansão levaram o preço dos vinhedos para as alturas. Atualmente, para quem quer começar a fazer vinhos na Borgonha restam apenas duas opções. Ou dispõe de milhões de euros para comprar terras ou adquire uvas de quem já está estabelecido na região.

O boom dos micro-négociants

Por conta dos elevados valores da terra, a Borgonha viveu um boom de micro-negóciants nas últimas décadas. Vinhateiros de diversas formações lançaram seus projetos solo, elaborando vinhos em pequena escala com suas marcas, a partir de vinhedos de terceiros. A maioria é composta por enólogos bem-sucedidos ou membros mais jovens das famílias de algumas das vinícolas da região, mas há também quem venha de outras atividades.

Um dos pioneiros que alcançou rápido sucesso foi Olivier Bernstein, que se lançou como micro-négociant em 2006, conseguindo comprar alguns vinhedos em 2012. Alguns nomes que também se destacaram na região são os de Benjamin Leroux, Pierre-Yves Colin-Morey, Philippe Pacalet, Dominique Laurent, Étienne Sauzet, Mark Haisma, Andrew e Emma Nielsen (Le Grappin), Jane Eyre e Marchand-Tawse. Parte deles, assim como Bernstein, conseguiram adquirir pequenas parcelas e ter vinhedos próprios depois de alguns anos. E isso levou à criação de linhas paralelas de vinhos. Por exemplo, os vinhos de Dominique Laurent elaborados a partir de uvas de terceiros (ou négoce, como é chamado na França), são engarrafadas com seu nome. Já as cuvées produzidas a partir de seus 11 hectares de vinhedos próprios são comercializadas como Domaine Laurent Père et Fils.

Esta busca, da parte dos négociants por vinhedos próprios, porém, não é algo novo. Além dos quatro grandes négociants da Borgonha, um outro nome deixa esta tendência evidente. Sob o comando da incansável Lalou Bize-Leroy, o tradicional négociant Maison Leroy, fundado em 1868, adquiriu parcelas em alguns dos melhores vinhedos da Borgonha e criou a Domaine Leroy em 1988.

Modelos distintos

A relação entre os micro-négociants e as vinícolas mais tradicionais da região deve ser destacada. De um lado, alguns membros das famílias mais tradicionais da vinicultura da Borgonha decidiram seguir carreira solo e se estabelecer como micro-négociants. Exemplos não faltam, entre eles Olivier Leflaive, Nicolas Potel ou Laurent Ponsot.

Por outro lado, alguns projetos de micro-négociants surgiram como uma atividade complementar de vinícolas já existentes. Até por conta da dificuldade em adquirir novos vinhedos, produtores tradicionais decidiram lançar uma atividade paralela de négoce, comprando uvas de terceiros e lançando uma linha de vinhos com uma nova marca. Exemplos são Domaine Dujac (com o négoce Dujac Fils & Père a partir de 2000), Domaine Fourrier (négoce Jean-Marie Fourrier) ou Domaine de Montille (négoce Deux Montille Sœur Frère, agora Maison de Montille).

Não só na Borgonha

Porém, os micro-négociants não estão restritos somente à Borgonha. Em diversas partes da Europa aumenta a cada dia o número de vinhateiros que se lançam em projetos solo, usando uvas adquiridas de terceiros para elaborar seus vinhos. Países como França, Itália e Espanha lideram esta tendência, embora não faltem exemplos em outras áreas com tradição vinícola ao redor do continente.

O Novo Mundo também tem visto um crescente número deste tipo de iniciativa, com destaque para Estados Unidos, Austrália, África do Sul, Chile e Argentina. No Brasil, o conceito também vem ganhando força, com vinhateiros, muitos deles com foco em vinhos de baixa intervenção, adquirindo uvas de produtores locais para elaborar seus vinhos. Você talvez não saiba, mas certamente já deve ter bebido um vinho de micro-négociant, um modelo de negócio que veio para ficar.

Fontes: Burgundy Report; Jancis Robinson; Wine Enthusiast; Financial Times; Decanter

Imagem: Jeff Jacobs via Pixabay

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