Vinhos mais jovens ou mais evoluídos? Decisão depende do que você busca ao degustar

O velho ditado deixa claro: gosto não se discute. Tenho uma opinião própria sobre este assunto, mas não há como negar que as preferências pessoais são importantes. E, quando falamos de vinho, este é um tema recorrente. O vinho, como quase tudo no mundo, passa por ciclos e modas, de forma que cada uma acaba identificando seu estilo favorito.

Falando em preferências, uma discussão interessante é sobre o momento ideal de consumo dos vinhos. Para muita gente, a primazia fica com vinhos jovens, onde a expressão da fruta e o frescor são predominantes, com maior intensidade de aromas primários. Por outro lado, há quem mostre uma clara predileção por vinhos mais evoluídos, aqueles onde sabores e aromas terciários ocupam um maior espaço.

Mais do que uma questão de tempo

No entanto, esta discussão pode ser muito mais ampla e ultrapassar a questão de gostos pessoais. Sabemos que o tempo modifica os vinhos, alterando seus aromas e sabores, mas também afeta sua textura, a percepção de sua acidez e seus taninos. E isso coloca a discussão em outro patamar. Para alguns, vinhos mais evoluídos tendem a convergir. Já para outros, seria o contrário, com os vinhos mostrando sua verdadeira identidade somente com o passar do tempo.

Existe um lado certo nesta discussão? Nesta hora, mais do que defender opiniões pessoais dos entusiastas do vinho, acredito ser importante ouvir a percepção de quem, ao menos no meu ponto de vista, melhor conhece o assunto. E eles são os produtores. Conhecer a posição de produtores de vinhos, sobretudo os mais experientes e bem-sucedidos, traz a discussão para outro nível, embora, como qualquer ser humano, eles também possam ter preferências pessoais.

A voz da experiência

Em um seminário organizado pelo grupo educacional britânico Wine Scholar Guild para discutir o impacto do solo e outros elementos do terroir sobre os vinhos, dois renomados produtores europeus deixaram clara sua posição sobre o assunto. De um lado, Dirk Niepoort, um dos responsáveis pela transformação da região do Douro nas últimas décadas. Mais do que somente uma longa trajetória nesta profissão, Dirk tem um amplo conhecimento de terroirs distintos, elaborando vinhos também no Dão e na Bairrada, além de projetos fora de Portugal.

De outro lado, Erni Loosen, um dos mais conhecidos produtores do Mosel, trabalhando sobretudo com a uva Riesling. Ele também desempenha atividades fora da sua região de origem, concentradas, sobretudo, no estado de Washington, nos Estados Unidos, e na Austrália. Apesar de atuarem em regiões distintas e com variedades diferentes, a conclusão de ambos, ao menos no que diz respeito ao impacto do tempo sobre os sabores e aromas dos vinhos, coincide.

Variedade versus terroir

Loosen deixou sua opinião muito clara. Para o produtor alemão, os aromas e sabores primários, que predominam quando os vinhos são mais jovens, representam de forma muito mais fiel as variedades usadas. Neste caso, há menos peso para o solo dos vinhedos e outros fatores do terroir. Já quando a percepção dos terciários aumenta, ou seja, com o passar do tempo, existe uma influência muito mais forte dos vinhedos, ou seja, aparece de forma destacada a assinatura do terroir.

Niepoort compartilha esta posição, mas vai além. Para o produtor português, vinhos elaborados a partir de videiras mais jovens, de até 20 anos, tendem a representar de forma mais fidedigna a sua variedade. Já o uso de vinhas velhas acaba aportando uma assinatura de terroir muito mais definida aos vinhos. Ou seja, tanto a idade das videiras como o tempo no qual o vinho fica guardado servem para relevar de forma mais evidente o terroir de seus vinhedos.

Mais jovens ou mais evoluídos?

Assim, a discussão entre beber vinhos jovens ou mais evoluídos ganha uma nova dimensão. E isso pode também ter relação com o estilo de vinificação adotado pelos produtores. De um lado, há vinhateiros que buscam imprimir uma assinatura pessoal aos seus vinhos. De outro, existem aqueles que preferem intervir o mínimo possível, para deixar que o terroir se revele de forma mais clara. Saber beber o vinho no momento certo, portanto, pode fazer a diferença também dependendo do estilo de vinificação escolhido.   

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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