História do vinho: uma viagem de 6 mil anos do Cáucaso até o Império Romano

A ciência evoluiu muito nos últimos anos, inclusive em relação à história da vinicultura. Diversos avanços permitiram aos pesquisadores reconstituir a trajetória do vinho, desde suas prováveis origens até os dias de hoje. Agora, ao invés de se basear apenas em relatos de civilizações antigas, os pesquisadores têm acesso a sofisticadas ferramentas de análise para preencher muitas lacunas antes consideradas insolúveis.

Com base nestas descobertas, é possível agora traçar uma cronologia mais detalhada da história do vinho, sobretudo de suas fases iniciais. Tendo o vinho surgido muito antes da invenção da escrita, a contribuição destas novas técnicas é fundamental, permitindo que possamos embarcar em uma verdadeira máquina do tempo para conhecer as origens do vinho.

O berço da vinicultura

A região do sul da Cáucaso (onde atualmente ficam Geórgia, Armênia e Azerbaijão) é considerada como o berço da vinicultura mundial. As evidências que baseiam esta afirmação são recipientes de argila descobertos nos sítios arqueológicos de Shulaveris Gora e Gadachrili Gora. Datados desde 6.000 a 5.800 anos antes de Cristo, eles apresentam evidências de ácido tartárico e resinas, indicando que foram usados para armazenar vinhos.

Isso não significa, porém, que novos achados não possam indicar origens diferentes, talvez até mais antigas. A região das montanhas Zagros, no atual território do Irã, surge como outra possível origem, embora ainda sem evidências comprovadas. Além disso, descobertas recentes indicam a elaboração de fermentados mistos (incluindo cereais, mel e uvas locais) na China há cerca de 7.000 anos, mas não há evidência da elaboração de um fermentado exclusivo de uvas.

Evidências na Ásia Menor

Também foram encontradas evidências de fermentados mistos no sítio arqueológico de Çatal Höyük, próximo das montanhas Taurus, na Turquia. Datados entre 6.500 e 5.500 a.C, porém, não trazem prova definitiva da fermentação exclusiva de uvas. Já nas ruínas de Hajji Firuz Tepe (5.400- 5.000 a.C), as evidências de armazenamento e consumo de vinho são mais claras.     

Porém, em Godin Teppe, na região onde atualmente fica o Irã, as evidências são inequívocas. Um jarro de cerâmica mostrou sinais de ácido tartárico e resina, evidenciando que o vinho já era produzido e consumido nesta região em torno de 3.100 a 2.900 a.C. Pesquisas adicionais são necessárias da região, mas desde a Revolução Islâmica de 1979 o acesso de pesquisadores ocidentais é limitado.

Região do Levante

A partir de suas origens mais ao norte, a vinicultura também chegou à área do Levante, onde atualmente ficam Síria, Líbano, Israel e Palestina. A domesticação da Vitis vinifera parece evidente no vale do rio Jordão em torno de 3.500 a.C. Parte desta região, já na época seca, ficava fora dos limites onde a Vitis vinifera sylvestris, a versão não domesticada, crescia naturalmente. Assim, a grande quantidade de sementes carbonizadas encontradas indica o cultivo.

Além da provável presença de vinhedos, esta região, especialmente na área que atualmente corresponde ao Líbano, também concentra duas evidências importantes. Em primeiro lugar, é uma área com grande concentração de pinheiros de Aleppo, que eram usados para a fabricação de resinas incorporadas ao vinho.  Além disso, as chamadas ânforas de Ashkelon acabaram se mostrando como um dos principais recipientes para o transporte de vinhos do mundo antigo.

Os vinhos dos faraós

As primeiras evidências de vinho no Egito foram encontradas no túmulo do faraó Escorpião I, datado de cerca de 3.150 a.C. Em sua câmara funerária em Abydos, foram identificados cerca de 700 jarros, com uma capacidade total de cerca de 4.500 litros. Análises químicas identificaram a presença de ácido tartárico e resinas, evidenciando a presença de vinho. Porém, por conta do tipo de resina encontrada e formato das ânforas, é provável que estes vinhos tenham sido importados da região do Levante.

A produção de vinhos no Egito surgiu posteriormente. Evidências mostram que já existia um sofisticado sistema de classificação de vinhos no reinado de Amenhotep II. Assim, entre 1.390 e 1.350 a.C. já existiam vinhedos no delta do Nilo, conforme as inscrições encontradas no túmulo do faraó. Também foram identificados vinhos no túmulo de Tutancâmon, que reinou entre 1.332 e 1.323 a.C.

O vinho chega à Grécia

O intenso comércio entre o Levante, Egito e a civilização minoica, que floresceu em Creta, pode ter sido a porta de entrada do vinho na Grécia. Ânforas encontradas em Myrtos mostraram a presença de vinhos na ilha ao menos desde 2.200 a.C. Além disso, evidências arqueológicas datadas de 1.550 – 1.470 a.C. indicam a existência de instalações para elaboração de vinhos em diversos sítios arqueológicos ao redor de Creta.

Em relação à Grécia continental, ainda não foram encontradas evidências de estruturas para vinificação tão antigas, embora a região tenha abrigado a subespécie silvestre da Vitis vinifera. Na ausência de achados arqueológicos que mostrem que a vinicultura tenha vindo diretamente da Ásia Menor, a hipótese que coloca Creta como um estágio intermediário ainda é mais aceita.

Fenícios e etruscos

Nenhuma civilização antiga talvez tenha tido tanta importância para a difusão da vinicultura como os fenícios. A partir de seus territórios no Levante e, posteriormente, a partir de Cartago (que ficava no atual território da Tunísia), este hábeis negociantes espalharam a cultura do vinho por todo o Mediterrâneo. Diversos naufrágios encontrados mostram que os fenícios comercializavam vinhos, ao menos desde o sexto século a.C, com diversos povos, chegando até as ilhas britânicas.

Juntamente com mercadores gregos, os fenícios teriam sido os responsáveis pelo forte crescimento na vinicultura documentada nas regiões controladas pelos etruscos. Esta civilização, a mais eminente na Itália antes do rápido desenvolvimento dos romanos, teria também contribuído para levar a vinicultura para outras partes da Europa. E isso inclui regiões que hoje fazem parte da França e da Espanha, que, juntamente com a Itália, são hoje os três maiores produtores mundiais de vinho.

Com o rápido crescimento do Império Romano, a internacionalização do vinho ganhou um novo capítulo, tanto do ponto de vista de consumo como de produção. Se as videiras, inicialmente plantadas no sul do Cáucaso, demoraram 6.000 anos para se espalhar por boa parte do sudoeste da Ásia e no Mediterrâneo, com os romanos elas foram muito além. Algo para ser descrito de forma mais detalhada em outra ocasião.  

Fontes: Ancient Wine, Patrick McGovern

Imagem: Peter Wieser via Pixabay

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