Intriga na Corte, espionagem e vingança: os bastidores da compra do vinhedo mais admirado do mundo

Não há como negar que La RomanéeConti seja um dos vinhedos mais icônicos do mundo, origem do vinho que consistentemente se coloca entre os mais caros do planeta.  A partir desta área de apenas 1,814 hectare (que corresponde a menos do que três campos de futebol) são elaboradas em média 5 mil garrafas ao ano, o que contribui para que uma simples garrafa da última safra custe em torno de € 15 mil na Europa.

Mas esta reputação de vinho extraordinário não é algo recente. Mesmo antes da Revolução Francesa, os vinhos elaborados a partir deste vinhedo já eram avidamente disputados e valorizados. E foi nesta época que o vinhedo foi parte de uma silenciosa disputa. Traição, escândalos, intrigas na corte, espionagem e muito dinheiro foram o cenário da compra deste vinhedo por um aristocrata francês, o que levou, inclusive à mudança no nome desta propriedade disputadíssima.

Um vinhedo especial

La RomanéeConti não é o nome original desde vinhedo. Plantado inicialmente pelos monges da Abadia de Saint-Vivant no século XIII, o vinhedo de Creux de Clos foi vendido pelos religiosos, passando por diversas mãos até ser adquirido por Philippe de Croonembourg, um militar holandês, em 1631. E foi Philippe quem mudou o nome do vinhedo para La Romanée, possivelmente por questões comerciais, fazendo jus à qualidade dos vinhos produzidos.

Se nesta época os vinhos da Côte de Beaune eram considerados superiores aos da Côte de Nuits, os vinhos de La Romanée ajudaram a mudar isso. Entre 1750 e 1760, estes vinhos já eram considerados como os mais caros da Borgonha, negociados entre seis a sete vezes o valor dos vinhos produzidos a partir do também icônico vinhedo de Clos de Vougeot.

Apesar disso, a família Croonembourg se afundou em dívidas. E a única solução encontrada foi vender a joia de sua coroa, o vinhedo de La Romanée, o que ocorreu em 1760. Porém, os detalhes desta transação são cheios de intrigas, refletindo uma disputa que tinha nada menos que o próprio rei da França no centro da narrativa.

Um aristocrata refinado

Louis-François de Bourbon, o Príncipe de Conti, não era um aristocrata qualquer. Nascido em 1727, era primo de primeiro grau do rei francês Louis XV e foi considerado como um dos mais talentosos e articulados membros da Corte francesa. Era um patrono das artes (um certo jovem músico chamado Wolfgang Amadeus Mozart era presença constante em seus saraus), mas sobretudo um condecorado militar e assessor próximo do rei.

Além de uma vitoriosa carreira no exército francês, foi por muito tempo o líder do Secret du Roi, uma rede de espionagem a serviço da Coroa francesa, com ramificações por toda a Europa. Por muito tempo, foi considerado como o principal confidente e um dos mais destacados conselheiros de Louis XV. Sete anos mais novo e primo de primeiro grau do rei, Conti chegou a ser candidato ao trono da Polônia. Mas tudo isso viria a mudar radicalmente, culminando, porém, com a compra de um importante vinhedo.

Mais que uma simples cortesã

Jeanne-Antoinette Poisson foi muito mais do que uma das mulheres mais belas da França em sua época. Nascida em 1721, aparentemente herdou a beleza de sua mãe. Ela a teria criado, de acordo com um relato da época, com “a educação de uma cortesã superior”. Já casada com um importante banqueiro e parte da camada mais favorecida da população, seu destino iria mudar a partir de 1744. Foi quando, em uma caçada, chamou a atenção nada menos do que do rei da França.

Elevada rapidamente à posição de amante principal de Louis XV, sua ascensão foi meteórica. Apenas poucas semanas após a caçada, foi chamada pelo rei para um baile à fantasia em Versailles, onde se estabeleceu. Já separada de seu marido, passou a ser chamada de Madame de Pompadour. Foi elevada em 1745 à posição de dama de companhia da rainha e passou a desfrutar de acesso direto à Corte.

Mas não foi somente pelos seus dotes físicos que Madame de Pompadour conquistou sua posição. Em 1752 recebeu do rei o título de duquesa, porém, nesta época, já não era mais a companheira favorita de cama de Louis XV. Chamava a atenção então pela sua capacidade de aconselhar o rei, que gozava da fama de ser indeciso e hesitante. Porém, para manter sua posição na Corte, existia um obstáculo. E seu nome era Louis-François de Bourbon, o Príncipe de Conti.

Um conflito silencioso

Foi a partir desta época que Conti e Pompadour travaram um conflito aberto pela atenção do rei. E houve uma clara vencedora. Conti perdeu influência do exército francês (não foi chamado para a campanha de 1756 na Prússia) e foi destituído de seu cargo no Secret du Roi, além de perder qualquer chance de assumir o trono polonês. Sua situação ficou ainda mais complicada no ano seguinte, quando circularam boatos que poderia ter tido alguma participação em uma mal-sucedida tentativa de assassinato de Louis XV.

Distante da Corte, em boa parte por conta da influência de Pompadour junto ao rei, se isolou em suas propriedades e cada dia mais foi visto adotando posições contrárias às da monarquia. Seu círculo de amizades incluía figuras marcantes do Iluminismo francês, como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. O próprio rei tinha ciência de suas posições oposicionistas, chamando Conti de “meu primo, o advogado”.

E um vinhedo no caminho

A disputa entre Conti e Pompadou acabou chegando ao mundo do vinho. De um lado, Pompadou que, segundo fontes da época, desejava o vinhedo de La Romanné. De outro, Conti. Com vastas propriedades na Borgonha, inclusive na Côte D’Or, o aristocrata acabou adquirindo o vinhedo, porém de forma indireta. Possivelmente com a intenção de evitar uma competição ainda mais acirrada de Pompadou, a compra foi feita em nome de Jean-François Joly de Fleury, um amigo próximo e na época governador da Borgonha.

Mas a disputa teve um preço alto. O valor pago foi considerado exorbitante para os padrões da época. O vinhedo teria custado cerca de 92.400 livres, um valor por hectare cerca de onze vezes mais alto que vinhedos vizinhos. Além disso, Conti investiu grandes somas na manutenção dos vinhedos e tomou uma decisão peculiar. Antes objeto de desejo de apreciadores de vinho de toda Europa, a partir daquele momento os vinhos elaborados com as uvas de La Romanée não seriam mais comercializados. Seriam exclusivos apenas de Conti e seus convidados. Nem mesmo o rei e, consequentemente Pompadour, teriam acesso ao melhor vinho da França.

Esta situação viria a mudar somente em 1776, quando Louis-François faleceu aos 58 anos, deixando o título de Príncipe de Conti para seu filho, Louis-François Joseph. Foi ele, também conhecido como Louis-François II, que teve suas as propriedades confiscadas (inclusive o vinhedo de La Romanée), como consequência da Revolução Francesa.

Novos destinos para o vinhedo

Em 1794 foi lançado o edital para o leilão do vinhedo, vendido após ter sido confiscado de seus proprietários e listado como bem nacional. O documento descrevia La Romanée como “um lote de vinhas famosas pela magnífica qualidade de seu vinho. Sua localização no território vinícola de Vosne é mais vantajosa para o amadurecimento de uvas”. O texto também não poupava elogios ao vinho. “Não podemos disfarçar que o vinho de La Romanée é o melhor de todos os da Côte D’Or e mesmo de todos os vinhedos da República Francesa”.

Curiosamente, no texto não há menção ao vinho ou propriedade como La Romanée-Conti. Isso é motivo de muita discussão. Há quem garanta que o Príncipe de Conti tenha incluído seu nome ao vinhedo ainda em vida, enquanto existem versões que apontam o contrário. Para os últimos, a adição do nome teria ocorrido somente após o confisco do vinhedo, como forma de distinguir de outro vinhedo próximo.

De qualquer forma, o nome La Romanée-Conti certamente começou a ser usado após os vinhos terem voltado ao mercado. Após passar por outros proprietários, o vinhedo foi adquirido em 1869 por Jacques-Marie Duvault, comerciante de vinhos e Conselheiro Geral da Côte d’Or, na época com 79 anos. Por herança familiar direta e uma transação comercial em 1942, ele chegou aos atuais proprietários, as famílias De Villaine e Leroy.

Destinos separados

Depois de perder sua posição na Corte, muito em função da influência de Madame Pompadour sobre Louis XV, o Príncipe de Conti conseguiu deixar sua marca na história do vinho. Certamente saboreou inúmeras garrafas deste vinho espetacular e emprestou seu nome a esta preciosidade (inclusive retratado na imagem acima, datada de 1766, onde Conti segura uma garrafa ao lado de sua amante).

Já a Madame de Pompadour manteve sua posição na corte. Seguiu sendo uma importante conselheira do rei Louis XV até 1764, quando faleceu por tuberculose no Palácio de Versailles, com apenas 42 anos. Foi uma das mais controvertidas figuras públicas do século XVII na França. Seu apelido de Reinette (rainhazinha) era justificado, acumulando uma longa série de inimigos.

Ao acompanhar a partida se seu caixão de Versailles, o Louis XV teria dito: “La marquise n’aura pas de beau temps pour son voyage” (“A marquesa não terá tempo bom para sua viagem”). O rei veio a falecer em 1776 e seu neto Louis XVI interrompeu uma sequência de quase mil anos da monarquia francesa. Ele foi executado em 1793, aos 38 anos, após condenação por um tribunal revolucionário.

Fontes: A história do Romanée-Conti, Maximillian Potter; Wikipedia; This is Versailles

Imagem: Alexis Simon Belle – Web Gallery of Art

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