Tendências: Borgonha age para manter sua posição de destaque no mundo do vinho

A Borgonha é única. Levando em conta a qualidade de seu terroir (um conceito que praticamente surgiu na região) e sua longa tradição, não é qualquer surpresa que seja a origem dos vinhos mais disputados e caros do mundo. Mas sem engana quem acredita que a Borgonha chegou a esta posição somente por seu histórico. É uma região que vem mudando e se aprimorando cada vez mais.

Podemos identificar ao menos cinco tendências, praticamente todas elas interligadas, que estão ajudando a definir o presente e criar as condições para um futuro ainda mais brilhante da região. Seja beneficiada por fenômenos naturais ou fruto da adoção de novas técnicas e procedimentos, a Borgonha está se equipando para manter sua posição de destaque.

Aquecimento global

O aquecimento global é um problema para muitas regiões vinícolas ao redor do mundo. Porém, para boa parte da Borgonha, ela aparece mais com um fator positivo do que negativo. Nesta região setentrional, praticamente no “antigo limite” do cultivo de uvas de qualidade para elaboração de vinhos, o aumento de temperatura acabou sendo algo benéfico.     

Na década de 1950, as temperaturas médias durante o período de crescimento das uvas eram de 15,5ºC na Borgonha. Porém, este número subiu para para uma média de 17ºC entre 2010 e 2022 e estas temperaturas mais altas, somadas a uma mudança no regime de chuvas, afetou a região. Caiu a umidade do solo, com menor pressão de doenças nos vinhedos como míldio e oídio, além do aumento na incidência de luz solar. Isso resultou em uvas mais saudáveis e menor variação de safras.

A contrapartida foi o aumento de fenômenos climáticos extremos. Eles aparecem, sobretudo, na forma de geadas na primavera e concentração das chuvas em períodos mais curtos, ambos fenômenos vistos em 2021. Mas, no conjunto, é difícil negar que o aquecimento global não tenha sido favorável para a Borgonha. E o impacto foi maior em vinhedos de orientação ou solos menos privilegiados, abrindo caminho para um maior nivelamento dos vinhos da região.

Práticas agrícolas

A maciça utilização de produtos sintéticos (herbicidas, fertilizantes e pesticidas) nos vinhedos, em praticamente todo o mundo a partir do final da Segunda Guerra Mundial, atingiu fortemente a Borgonha. Nesta região de clima mais frio e chuvoso, não foram poucos os produtores que abusaram destes produtos. A consequência foi uma considerável deterioração dos solos e redução da vida bacteriana, com consequências evidentes na qualidade dos vinhos.

Isso, porém, mudou nos últimos 15 anos. Em um movimento inicialmente top-down (começando por algumas das vinícolas mais tradicionais, entre elas Domaine de la Romanée Conti e Domaine Leroy), o uso de práticas sustentáveis cresceu rapidamente nos vinhedos da Borgonha. A maioria dos produtores atualmente trabalha com os princípios da agricultura sustentável (lutte raisonée), mas muitos vão além.

A agricultura orgânica está crescendo rapidamente. A porcentagem de vinhedos da Côte D’Or com certificação orgânica atingiu 19% em 2018, acima da média de 12% na França. Também o uso de práticas biodinâmicas ganha espaço, beneficiado não somente pela percepção de uvas de melhor qualidade, mas também pela maior conscientização e menor pressão de doenças na região, uma consequência benéfica do aquecimento global.

Uso adequado da tecnologia

Embora seja uma região considerada relativamente conservadora, com uma alta concentração de propriedades familiares de pequeno porte, a Borgonha também tem se rendido a diversos avanços na tecnologia. Uma proporção crescente dos produtores tem dedicado mais atenção às pesquisas sobre seleção clonal e escolha de melhores raízes, ambas já levando em conta as mudanças decorrentes do aquecimento global.

Houve também uma modernização nas práticas de colheita mecanizada (algo muito relevante sobretudo na região de Chablis, onde apenas 15% da colheita é manual), garantido melhor qualidade de uvas. Além disso, muito produtores têm optado pelo uso de leitores óticos para a seleção de uvas, novamente com o objetivo de garantir uvas mais saudáveis e no melhor ponto de maturação.

Técnicas de vinificação

Se a tecnologia está sendo mais utilizada na agricultura e seleção de uvas, um outro movimento relevante é a menor intervenção na vinificação. Nos últimos anos, vem aumentando a proporção de produtores que descarta o uso de técnicas mais intervencionistas na adega, voltando a uma vinificação mais tradicional.

Por exemplo, o uso exclusivo de leveduras indígenas na fermentação é cada dia mais comum, garantindo vinhos mais autênticos. Em paralelo, uma quantidade crescente de produtores tem aderido à tendência de uso mais parcimonioso do carvalho na vinificação, sobretudo com menor utilização de barricas de primeiro uso. O objetivo, novamente, é a elaboração de vinhos mais frescos e puros, mantendo a complexidade e qualidade.

O papel dos micro-négociants

No passado a Borgonha era dominada por cooperativas e négociants. Até as décadas de 1920 e 1930, poucas propriedades engarrafavam seus vinhos, mas isso mudou radicalmente. De forma crescente, desde então, muitos produtores passaram a engarrafar e comercializar diretamente seus vinhos. O resultado foi a criação de várias das mais respeitadas vinícolas da região.

Porém, o impressionante aumento no valor das terras na Borgonha nas últimas décadas resultou em uma nova tendência. Se no passado era factível um vinhateiro talentoso comprar parcelas próprias e estabelecer sua própria vinícola, isso hoje é muito mais difícil. A solução foi a criação do que se convencionou chamar de micro-négociants. Ao invés de adquirir terras, muitos vinhateiros arrendam vinhedos ou compram as uvas, sendo responsáveis pela vinificação e distribuição.

E esta tendência não ficou somente restrita a novos nomes. Muitas vinícolas já estabelecidas também decidiram criar estruturas de négoce. Assim, além de elaborar os vinhos a partir de seus vinhedos próprios, também compram uvas de terceiros. Estes vinhos são comercializados com uma marca diferente, mas normalmente respeitando o padrão de qualidade adotado pela vinícola. Isso permite também novas expressões de vinhos, já que vinícolas tradicionais não ficam somente restritas às áreas onde possuem vinhedos, podendo agora explorar outras denominações de origem da Borgonha.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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