Uma uva com muitas identidades: Trousseau, Bastardo ou Merenzao?

Algumas uvas, como Nebbiolo, Aligoté, Dolcetto ou Albariño, ainda se mantém muito ligadas a uma região específica. Outras, por outro lado, ganharam o mundo, como Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Pinot Noir ou Syrah. No meio termo, porém, poucas conseguiram ganhar espaço em apenas duas regiões bastante distintas. E uma delas a francesa Trousseau, conhecido como Bastado em Portugal e Merenzao, na Espanha.

Ela é possivelmente originária da região do Jura, no sudeste da França, onde é considerada como a variedade tinta autóctone mais nobre, embora ocupe apenas 8% dos vinhedos da região. Seu parentesco genético (não se sabe ainda se ascendente ou descendente) com a Savagnin reforça a hipótese que a Trousseau tenha surgido nesta região francesa, onde suas primeiras referências datam do século XVIII.

Presença na Península Ibérica

Embora seja provavelmente uma uva francesa, é no noroeste da Península Ibérica que ela ganhou mais espaço. O norte de Portugal, desde o Dão até Trás-os-Montes, é onde atualmente essa varietal tem sua maior área plantada no mundo. No Douro, por exemplo, ela faz parte das uvas autorizadas para o tradicional corte dos vinhos do Porto, embora tenha perdido espaço nas últimas décadas.

Também na Espanha, ela ocupa seu espaço, sobretudo na denominação de origem Ribeira Sacra, onde em 2021 foi a quinta variedade tinta em termos de produção. Isso não significa, porém, que seja uma uva de grande escala mesmo nesta região, já que sua produção correspondeu a apenas 1% do que foi colhido da líder Mencia. Existem também pequenas áreas plantadas em Valdeorras e alguns vinhedos “perdidos” nas Ilhas Canárias.

Qualidade versus quantidade

Embora esteja longe de ser uma variedade popular, a Trousseau é conhecida por produzir vinhos de boa qualidade. Ela vem ganhando espaço na forma de vinhos monovarietais, deixando para trás sua condição de coadjuvante em cortes, sobretudo em Portugal e na Espanha. Pesa contra o fato de ser uma uva que, apesar de boa fertilidade, tem um baixo rendimento se o objetivo é produzir vinhos de qualidade.

Uma de suas principais características é o fato de ser uma uva de grande precocidade, que lhe permite amadurecer cerca de quinze dias antes de qualquer outra, nas regiões de origem. Por conta disso, era usada para adicionar mais dulçor aos cortes, inclusive no Douro. Como varietal, porém, a tendência é que seja colhida realmente mais cedo, até para compensar sua acidez mais baixa.

Por conta das diferenças em seu ponto de colheita, é difícil descrever o que seria um típico vinho elaborado com Trousseau. No caso de uvas colhidas mais tarde, sobretudo na Espanha e Portugal, são vinhos de coloração mais escura, com muita presença de notas de frutas de bosque no olfativo, com o gustativo marcado por acidez e corpo médios, boa carga tânica e uma presença de fruta mais doce e mais açúcares. Em solos mais pobres ou em colheitas mais prematuras, por outro lado, tendem a ser vinhos mais frescos e claros, mantendo um bom equilíbrio de boca. Por fim, por conta de seu dulçor, também pode ser usada para elaboração de vinhos de sobremesa.

Características

Sendo uma variedade de ciclo prematuro, é sensível às geadas da primavera, o que limita sua produção em áreas muito frias. Seu ambiente ideal é em locais de temperatura mais amena, seja menores altitudes ou vinhedos protegidos, com solos com boa drenagem. Tem boa resistência ao míldio, embora seja particularmente afetada pela botrytis.

Os cachos são pequenos em tamanho, cônicos e muito compactos. Os grãos são esféricos, de tamanho médio e coloração azul acinzentada. Aliás, o formato dos cachos teria dado origem ao seu nome em francês, embora uma outra teoria seja ainda mais criativa. Por sua capacidade de produzir vinhos com boa capacidade de evolução, os vinicultores do Jura deixariam garrafas guardadas até o casamento de suas filhas, quando serviriam de moeda de troca para a aquisição do enxoval (que seria a melhor tradução de trousseau em português)

Área plantada

Não existe uma estatística consolidada sobre as áreas plantadas desta uva ao redor do mundo, uma vez que não foi incluída no relatório da OIV sobre o assunto. Diversas fontes colocam Portugal como sua principal região produtora no início da década de 2000, com cerca de 1.200 hectares. Porém, estatísticas mais recentes portuguesas (datadas de 2018) não a colocam neste patamar, com uma estimativa na faixa de 800 hectares.

Na França, sua produção se restringe praticamente comente ao Jura, com cerca de 180 hectares plantados em 2018, enquanto na Espanha sua área não superaria 120 hectares. Há menções de vinhedos também em outros países, sobretudo no Leste Europeu, como Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia e Moldávia, além de Chipre, Austrália, Argentina, África do Sul e Estados Unidos.

Nomes alternativos

Apesar de sua pequena área plantada, recebe nomes distintos em várias regiões, sobretudo fora da França (onde ocorrem, porém, diversas variações de grafia). Por exemplo, na Espanha é conhecida não somente como Merenzao, mas também como Maria Ordoña ou pelo seu nome português, Bastardo. Mesmo em Portugal, assume “outras identidades”, sendo também chamada de Graciosa.

Os demais nomes, segundo o catálogo da Universidade da California – Davis, são: Bastardinho, Bastardo de Castello, Bastardo dos Frados, Bolonio, Cabernet gros, Capbreton rouge, Chauche noir, Cruchenton rouge, Donzelino de Castille, Gris de Salces, Gros Cabernet, Maturana tinta, Maturano, Pardinho, Pinot gris de Rio Negro, Semillon rouge, Toussot, Tressau, Tressot, Triffault, Trousse, Trousseau gris, Trousseau noir, Trussiau, Triffault e Verdejo negro.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Plantgrape; Instituto da Vinho e do Vinho de Portugal; Cepas y Vinos; Ribeira Sacra DOC; Museo do Viño da Galicia; Jura Wine, Wink Lorch;

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