Verdejo, queridinha na Espanha, mas pouco valorizada no exterior

Os vinhos brancos espanhóis produzidos com a uva Verdejo representam cerca de 40% dos vinhos consumidos no mercado doméstico. E apenas 10% dos brancos exportados pela Espanha.

Por que tamanha discrepância? Será que o consumidor espanhol vê ou sabe alguma coisa que os de outros países não veem ou não sabem? Ou então a elevada participação local de vinhos a base da variedade Verdejo se justificaria por serem vinhos simples e com preços reduzidos?

O que dizem os críticos

Na edição de março de 2022 da revista Decanter, foi publicado o resultado de um panel tasting com 120 amostras desse vinho comercializados no mercado inglês. O painel contou com 3 juízes: Sarah Jane Evans MW, Christiane Parkinson e Beth Willard. O resultado foi:

Vinhos excepcionais 2%Altamente recomendados 25%Recomendados     68%Justos   2%Ruins      1%   Com defeito   1%

Em resumo, 95% da amostra foi composta por vinhos recomendados pelas juízas que o avaliariam. E 27% foram vinhos considerados de qualidade acima da média.

Mesmo considerando que o resultado de um único painel não pode ser extrapolado, por mais bem qualificado que sejam os juízes e o veículo onde foi publicado, é evidente a avaliação desse painel deixa um recado importante.

Características da Verdejo

De origem incerta, muitos acreditam que tenha sido levada à Espanha pelos Mouros, apresenta casca fina, baixo rendimento e grande suscetibilidade a doenças fúngicas. Por conta disso, tende a se dar melhor em regiões secas. Na Espanha a maior parte da área plantada está no centro-norte do país, com destaque na denominação de origem Rueda, em Castilla y Leon.

No visual, os vinhos costumam mostrar baixa intensidade visual, pálidos e transparentes. Intensos também no nariz, com aromas de grama verde, limão, lima e pêssego verde. Esse perfil aromático costuma confundi-la com a Sauvignon Blanc, que, aliás, tem também boa presença em Rueda, onde é comum ser misturada com a Verdejo.

No entanto, as notas herbáceas dos vinhos a base de Verdejo tendem a ser menos pronunciadas. Além disso, os melhores exemplares são produzidos a base de uvas produzidas em videiras antigas, relativamente comuns em Rueda. Os vinhos são mais concentrados e os aromas cítricos mais confitados, com notas de mel aparecendo com a evolução.

Diferenciais

A acidez vibrante é o grande diferencial dos vinhos. Além disso, comparado à Sauvignon Blanc, costuma ser relativamente mais encorpado e é comum a descrição de um ligeiro amargor.

Há um estilo particular e diferenciado, o Rueda dorado, elaborado ao estilo do Jerez oxidado (Oloroso), o que significa o envelhecimento em soleras.

Vinho de Alberto, Dorado Rueda NV, da Bodega Hijos de Alberto Gutierrez (foto do site do produtor) e considerado excepcional no Panel Tasting da Decanter Magazine, edição de março de 2022

E com o objetivo de valorizar os vinhos mais nobres, a DO Rueda lançou em 2019 novas designações para seus vinhos Premium: o Gran Vino de Rueda, os Vinos de Pueblo e o Rueda Palido. Essa classificação vale para safras a partir de 2020 .

Não deve ser à toa que os espanhóis curtem tanto

Na amostra avaliada pela Decanter, mencionada anteriormente, 120 vinhos foram avaliados. 25% foram avaliados como “altamente recomendável. E nesse grupo, o preço dos vinhos variou de £ 9,9 – 41,9. Isso sugere uma boa relação entre a qualidade oferecida versus o preço cobrado.  Levando em conta a credibilidade de quem julgou e da publicação, trata-se um patamar respeitável.

No Brasil, no entanto, a maior oferta está concentrada nos vinhos de entrada e com preços mais acessíveis. E na faixa de preço que estão posicionados, muitos deles por volta de R$ 150 (maio de 2022) são muito interessantes e merecem uma chance na taça de todo enófilo.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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